domingo, 5 de junho de 2016


Congresso do PS








Pedro Barroso confessa

não conseguir ser «gay»

e penitencia-se...


O CERCO 
    Venho aqui pedir desculpa
    de não ser evoluído,
    apesar destas campanhas
    na rádio, na televisão,
    em toda a parte, insistindo
    na urgência do assunto…
    Eu não consigo gostar;
    – não consigo mesmo, pronto.
    Sei que pertence ser gay,
    toda a gente deve ser.
    Mas eu, lamentavelmente
    não sou como toda a gente;
    Como aconteceu... não sei,
    peço desculpa por isso,
    mas confesso: sou… diferente.
    Sei que vos pode ofender
    esta minha enfermidade,
    pois um gajo que assim pensa
    hoje em dia, não tem nexo;
    deveria ser banido,
    expulso da comunidade.
    É uma vergonha indecente
    Gostar de mulher, ter filhos
    Casar, afagar, perder-se
    Com pessoa doutro sexo!
    Uma nojeira repelente;
    Dar-lhe, até, beijos na boca
    em público! E declarar
    Esta sua preferência
    Que eu nem sei classificar!
    Tenho uma vergonha louca
    E desejo penitência
    por tal desconformidade,
    retardamento, machismo,
    doença, fatalidade!
    Já tentei tudo: – inscrevi-me
    em saunas, aulas de dança
    cursos de perfumaria
    origami, greco romana,
    ioga – para ter ousadia
    boxe – p’ra ganhar confiança...
    Mas quando chega o momento
    De optar… sou… decadente,
    Recorrente e insistente.
    Opróbrio raro e demente,
    Ver uma mulher seduz-me,
    Faz-me vibrar, deslumbro.
    Vê-la falar, elegante;
    Vê-la deslizar, sensual
    Como vestal, deslumbrante
    Seu peito assim, saltitante
    Sua graça embriagante
    olho com gosto, caramba,
    lamento ser tão ...normal.
    Mas eu confesso que sinto
    – neste corpo tão cansado
    Que da vida já viu tanto...
    Ainda sinto um desejo
    Que m’ envergonha bastante
    Por ser já tão deslocado
    tão antigo, assim tão fora
    do mais moderno critério.
    Valia mais estar calado
    Mas amigos, já agora
    Assumo completamente:
    – Tenho esse problema sério.
    Nunca integrarei partidos
    Onde não sou desejado.
    No planeta das tais cores
    não tenho dia aprazado,
    nem bandeira, nem veado,
    nem «orgulho» especial!
    Sou mesmo do «outro lado»
    dito «heterossexual»
    e já me chateia um bocado
    Ter que dizer, embaçado,
    que me atrai o feminino
    e sou apenas «normal»!
    – e, portanto, avariado.
    Mas… mesmo assim, – saudosista,
    imensamente atrasado,
    terrivelmente cercado,
    conservador nesse ponto,
    foleiro, desajustado...
    perdoai-me tal pecado
    – Não me sinto ...assim tão mal!






domingo, 15 de maio de 2016


Barrigas de aluguer: o testemunho de uma mãe




Catarina Nicolau CamposSenza Pagare, 14 de Maio de 2016

Assim como chove lá fora, hoje também chove no meu coração.

No mesmo dia em que o Parlamento aprovou as «barrigas de aluguer» em Portugal. Ora o aluguer, como aprendi na faculdade de Direito, é uma forma de locação, quando esta incide sobre coisa móvel. E por locação entende-se o contracto pelo qual uma das partes se obriga a proporcionar à outra o gozo temporário de uma coisa, mediante retribuição. Só por isto poderíamos dizer, Dr. Passos Coelho: as barrigas não se alugam.

Mas a questão é bem mais radical. Em Agosto de 2010 soube que estava à espera da minha primeira filha. À espera não, porque na verdade ela já lá estava bem presente, e na segunda ecografia, com 8 semanas e picos, o coraçãozinho da Pilar já era bem audível, para sorriso rasgado do pai e lágrimas descontroladas da mãe. Durante 9 meses de enjoos, infecções sem fim, mais 26 quilos, noites sem dormir, dias inteiros só a dormir, aprendi a conviver com a minha bebé. Aprendi que sempre que ouvia os acordes de uma guitarra portuguesa, a Pilar saltava de alegria. E por isso, ao longo de 9 meses, muitas guitarradas lhe foram dedicadas. Aprendi que, sempre que me virava para dormir do lado direito, subia escadas a correr ou me enervava, a Pilar dava pontapés de insatisfação e só eu sabia disso, eu, a sua mãe. Geri toda a alimentação para que nada lhe fizesse mal, porque uma mãe quer o melhor para os seus filhos.

A barriga cresceu, o resto também, e ao fim de 9 meses percebi a relação íntima que uma mulher tem com o seu útero. E depois de uma cesariana, ficaram ainda mais visíveis as marcas físicas da passagem do ser maravilhoso que é a nossa filha pelo meu corpo. Meu corpo? Meu não, dela, porque o meu útero foi feito para lá estarem os meus filhos, e o meu peito para os amamentar. Nós mulheres, somos veículos de Vida. E quando a Pilar nasceu, acalmava-se quando a encostava ao meu coração, porque estes foram os batimentos que ela se habituou a ouvir.

A Pilar conhecia o meu cheiro e por isso, (e passados 8 meses ainda é assim), não há colo como o da mãe. E esta relação de cumplicidade, esta experiência, única e irrepetível, não se aluga, nem se compra. Assim como não se alugam e não se compram os bebés. A partir do momento em que tratamos as crianças como meros objectos, coisas, para preencher um vazio numa relação, para completar a fotografia de família ou apenas porque lhes apetece ter algo para entreter, temos crianças adoptadas que são devolvidas às instituições porque, simplesmente, não tiveram boas notas, como se fossem cães que não tivessem atingido o objectivo dos seu treinadores.

Assim, hoje, por estas crianças, e pelas que não nasceram porque não lhes foi dada sequer a oportunidade de viver, chove no meu coração.





sábado, 14 de maio de 2016


Entre dois terrorismos


Pe. Vasco Pinto de Magalhães, Observador, 14 de Maio de 2016

Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês, pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica.

A Europa está entalada entre dois terrorismos. Está entre dois fogos, que parecem de sinal contrário mas que se excitam um ao outro. Ciclicamente, na história do Ocidente, esses ataques marcam tempos de crise sociocultural e política.

Que ataques são esses? Há um terrorismo que vem de fora e actualmente aparece sob a bandeira do «Estado Islâmico». Surge como força ideológica («religiosa») violenta pretendendo dominar (e eliminar) uma europa que acusa de estar doente, vendida à democracia, sem valores, opressora e imoral, tradicionalmente seguidora de uma cultura religiosa adulterada, a cristã. O Ocidente é um mundo de infiéis – mas ricos! – que os puros, os verdadeiros islâmicos, não podem suportar, em nome da sua crença num islão original (radical e primitivo). Ameaças, ataques suicidas, destruição à bomba (até de outros muçulmanos que assim não pensem), são meios justificados pela sua «nobre» causa. A história ensina que um fanatismo cego, radical, fechado a qualquer diálogo, orgulhoso e ressentido, tem os dias contados; mas, entretanto vai seguindo, embriagado e iludido pelo sangue que vai deixando pelo caminho. Por outro lado, paradoxalmente, enquanto os próprios islâmicos críticos e lúcidos não forem capazes de se afirmar, este terrorismo vai vivendo, também, à custa do próprio Ocidente que, nas suas cegueiras economicistas, não desiste de lhes comprar o petróleo e, depois, lhes vender as armas.

Há um outro terrorismo que vem de dentro. É também uma doença social e cultural apoiada em políticas ditas «libertadoras», que se assumem como radicais e modernas mas resvalam orgulhosamente para um fanatismo cego, pronto, por todos os meios, a erradicar aquilo que pensam ser o grande mal do ocidente: a sua matriz cristã e a cultura e valores éticos personalistas, que vêem como inimigos de um admirável futuro: o das liberdades individuais sem restrição. O atraso e o inimigo a abater está consubstanciado na Igreja católica. A bandeira deste terrorismo não é a laicidade; é o laicismo anticlerical. E o seu paradigma de felicidade é uma justiça burguesa, consumista, ao sabor de um liberalismo «emotivista», endeusando o indivíduo, que já não é homem e mulher, mas um género à escolha. Aliás, apresenta-se como sendo uma ideologia de esquerda, quando, dos ideais sociais da Esquerda, quase nada tem.

Este terrorismo também mata e é guerrilheiro, sobretudo quando conquista algum poder. Assim foi acontecendo nos vários países europeus, submetidos ao terror nas épocas em que esses movimentos chegaram ao poder. É uma realidade actual na Europa. Em Portugal também. E não precisamos de ir mais longe para aprender e apreender o que representam esses fanatismos, bastando trazer à memória Joaquim António de Aguiar (o Mata Frades), presidente do Conselho de Ministros, com a sua Lei de extinção das ordens religiosas em 1834; e, numa segunda onda, com a revolução republicana de 1910, onde a carbonária, apoiada na franco-maçonaria, levou ao poder Afonso Costa (o grande paladino da luta anticlerical), que prometia erradicar o catolicismo de Portugal em duas gerações.

Hoje a situação é bastante semelhante no seguidismo do laicismo francês. Não afirma a nossa «esquerda burguesa» que é preciso «descristianizar» a nossa cultura e erradicar das consciências «a culpa católica»? Em nome da liberdade e do progresso, claro! A história ensina o suficiente: em nome da «Liberté» os génios da Revolução Francesa chegaram até ao genocídio de Vendeia, por exemplo, a pequena região católica que se lhes opunha. «Gloriosamente» assassinaram algumas centenas de milhares de pessoas: «Vendeia morreu sob os sabres da nossa liberdade!». Foi em 1793. Mas de novo, em 1902, o governo de Émile Combes, apoiando os ideais radicais do Bloco das Esquerdas (onde terão ido os nossos bloquistas buscar o nome?) e com o auxílio da Loja maçónica do Grande Oriente de França, lança a grande ofensiva anti-católica: fecha 3 000 escolas, rompe as relações com Roma, expulsa os católicos dos cargos públicos, confisca os bens das ordens religiosas. Numa palavra, promove o Terror fracturante de tudo o que lhe parecesse cultura do passado e, «evidentemente» católica.

O laicismo francês, tal como o belga e o holandês, está de novo em alta e aparece como novo paradigma da modernidade a imitar. Começa por atacar nas questões éticas a fim de eliminar tudo o que possa ser resquício da moral cristã que «se opõe ao futuro» e que, em nome da «liberdade» e da «igualdade», o individualismo e o pragmatismo tecnocrático não suportam. Primeiro é preciso erradicar os sinais sagrados, quer seja a cruz na sala de aula, quer seja aquela que se traz ao peito. Depois, vem a fúria da legalização das mais variadas fantasias sobre a vida humana desde a eutanásia às barrigas de aluguer. E apoiando-se em ideologias sem base na realidade e ignorando (e rejeitando) qualquer antropologia, pretende-se construir a sociedade moderna, livre e sem limites. O caso mais típico é o da chamada «ideologia de género» que haverá de impor, desde o início da escola, com actos e textos de verdadeiro terrorismo. Essa luta assumida como libertária, contra a cultura e a religião, serve-se de todos os meios, em especial das redes sociais e da publicidade, usando, sobretudo contra a religião, a humilhação e o sarcasmo, sob a bandeira do dogma Liberdade de expressão sem limites, tal como o fazia, exemplarmente, a Revista Charlie Hebdo.

Nem sempre nos damos logo conta de que o fracturante é facturante!

Por cá vai-se tentando seguir a cartilha. Faz impressão ver que o movimento ideológico do Bloco de Esquerda, nem se deu ao trabalho de branquear o nome. Assim é mais claro em que águas se move. Não é fácil encontrar nas suas figuras e pensamento os ideais sociais da esquerda. Mas a pressa em se lançar no terrorismo laicista é bem visível. Salta à vista a fúria de legalizar (sem escuta dos outros, com publicidade de mau gosto e fracturando culturalmente o povo) todas as liberdades, não como escolhas de bens respeitadores da consciência ética personalizante desse povo, mas como exaltação do orgulho individualista que se arroga o direito de fazer à vida o que lhe parecer e o que for mais rápido e eficaz, mesmo passando por cima do sereno debate sobre os valores humanos, considerados «pobres dogmas da consciência antiquada e clerical». Assim se tenta impor (a votos de maiorias instaladas e sem discussão ponderada e generalizada) as barrigas de aluguer, a eutanásia, a igualdade dos pares homossexuais ao casal homem-mulher, etc.

Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês, pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica, afirmando-se como luz (ingénua) portadora de um mundo novo. Apresenta-se com algum fascínio nos vários países europeus cansados e tristemente desgastados pela corrupção, como uma alternativa pós moderna. Mas… sem base nem pensamento credível, arrebanha os desiludidos da vida. É o fogo-fátuo do «Podemos» espanhol, por exemplo, que ostenta nos seus programas acabar com tudo o que sejam manifestações religiosas. Em nome da «liberdade», da «autonomia» e da «dignidade», termos que entendem de modo infantil, dogmático e subjectivo. E assim oferecem o seu paraíso, o seu século das luzes: descartando tudo o que é velho, doente, deficiente, não rentável, tudo o que exige gastos «inúteis», tudo o que, além disso, pode vir a pedir-nos responsabilidades.

Não deveria esta pequena burguesia olhar para a história, desenvolver algum pensamento crítico e tornar-se realmente «de esquerda»? «De esquerda» no sentido de: ocupada com o bem comum, com a justiça social e fraterna, integradora dos que estão nas margens da sociedade de consumo, promotora de uma educação realista, mais atenta aos frutos de humanização que aos resultados de cursos feitos à pressa, capaz de dar tempo a uma reflexão antropológica… Capaz de abrir os olhos para a realidade e para a história das culturas que mostram bem como só o amor (respeito pela verdade) é fonte de futuro, enquanto as ideologias (como a de género) são suicidas!

A mentira existencial em que estes radicalismos encalharam só se aguenta com a violência. E a violência, arma dos fracos e de quem não tem argumentos, instala-se à sombra do terrorismo. Estarão à espera que se lhes responda com uma violência igual que possa desculpar. Mas, como disse Gandhi: «com a lei do olho por olho ficamos todos cegos». E a história já mostrou, repetidamente, que o ataque à verdade não compensa, pois acaba por a fazer vir ao de cima; e mais: a Igreja saiu sempre renovada e fortalecida de todas as perseguições.





segunda-feira, 9 de maio de 2016


Professor Martelo


João Pereira Coutinho, Correio da Manhã, 8 de Maio de 2016

Entendo as razões dos defensores do acordo ortográfico. Também entendo as razões pelas quais uma criatura acredita que é Napoleão Bonaparte. Mais difícil de compreender é o motivo que leva uma classe política inteira a seguir com respeito Napoleão Bonaparte. O problema do acordo nem sequer é técnico ou jurídico. Isso é óbvio: qualquer um sabe que aquilo é uma aberração linguística (a grafia como mera transcrição fonética?) e uma ilegalidade completa (lembrar as acrobacias jurídicas que se fizeram sobre o texto original). Sem falar da ambição autoritária de submeter 300 milhões de falantes a um capricho racionalista. O problema do acordo é termos tido vários governos que, reverentes e analfabetos, foram ratificando, modificando e legislando como se o acordo fosse mesmo para levar a sério. Se Marcelo ajudar a acabar com esta farsa, a sua Presidência já terá valido a pena.






domingo, 8 de maio de 2016


A opinião de um socialista sobre a governação Costa:


«Acabar com a mama!»


António Galamba, membro da Comissão Política Nacional do PS

Quando se tem na educação um alienígena da realidade portuguesa que, entre a sobredose ideológica e o aprisionamento pelos sindicatos, acha que pode brincar com a vida das crianças e dos jovens nos currículos, nos exames e nas matrículas, o risco de disparate é grande

Quando começa a ser claro que o que é dito não importa, porque numa semana o que é relevante é a palavra de Bruxelas e não a do Conselho das Finanças Públicas, mas na semana seguinte, as previsões de Bruxelas já não contam, surge toda uma orientação política: «Acabar com a mama!». O sentido é o do governo e da maioria parlamentar, a expressão, forte, é dos eufóricos apoiantes da alegada deriva.

Depois do governo ter criado um grupo de trabalho com o objectivo de estudar o futuro da ADSE, tendo em vista a possibilidade de alargar o subsistema de saúde do Estado aos cônjuges e filhos (até 30 anos) dos funcionários públicos, no que foi visto como uma medida susceptível de ampliar a quota de mercado dos privados na saúde e de enfraquecer o Serviço Nacional de Saúde.

Depois de um conjunto de medidas governativas, por vezes, sem rumo, sem sustentabilidade e sem critério, o governo mandou às malvas a palavra dada sobre a previsibilidade das opções políticas, o mobilizar Portugal e o sentido de respeito pelas pessoas em detrimento dos mercados. Sim, há um crescente mercantilismo de seres humanos, já não sob a forma de escravos, mas ao nível da disputa entre o público e o privado na saúde, na educação e na protecção social, em vida e na morte. Algumas destas tensões presentes na sociedade agravaram-se com as alterações registadas na diminuição da natalidade e no aumento da esperança de vida. São evidentes os desfasamentos entre oferta e procura que aconselham intervenções, com senso e com sentido de justiça.


A doutrina do «acabar com a mama» não pode significar, como acontece na educação e noutros serviços públicos, o redireccionar da mama do privado para o público, sem ter em conta o interesse daqueles a quem o serviço é prestado e a estabilidade mínima das opções políticas. O problema é que quando se tem na educação um alienígena da realidade portuguesa que, entre a sobredose ideológica e o aprisionamento pelos sindicatos, acha que pode brincar com a vida das crianças e dos jovens nos currículos, nos exames e nas matrículas, o risco de disparate é grande. Aliás, num experimentalismo similar ao de Crato, só que com sentidos diferentes. Já não há pachorra, quando um pai não consegue explicar matemática aos filhos com três anos de diferença, porque tudo mudou e tudo muda, sempre que muda o governo ou a inspiração do titular da pasta.

Populismo do «acabar com a mama» à parte. Houve um desinvestimento dos últimos governos PSD/CDS na escola pública como houve um novo-riquismo no passado mais remoto com algumas das intervenções da «Parque Escolar», enquanto se deixavam a quilómetros, «escolas» em condições deploráveis e se quartava a possibilidade de serem os Municípios a concretizar essa onda de renovação dos equipamentos, a preços mais consentâneos com o país. Não vi nesses desequilíbrios nenhuma intervenção relevante da FENPROF, mais entretida a tratar das vidinhas. Afinal, com tantas Cartas Educativas e tantos estudos quase de planeamento soviético orientado como foi possível que a realidade tenha passado ao lado das iluminárias.

O que se pede na Educação é um mínimo de respeito pelos alunos, pelos pais, pelos professores e por todos os que integram as Comunidades Educativas quando se têm de operar alterações em resultado de opções políticas, constem elas ou não, de compromissos eleitorais, de programas de governo ou de cartilhas ideológicas injectadas pelos avaliadores sindicais do ministério. A não ser assim, de três em três meses, por ocasião da avaliação do Ministro pelos Sindicatos, corre-se o risco das novidades serem de instabilização das comunidades e de satisfação dos de sempre. E nesse quadro, os louvores dos sindicatos ao Ministro sairão sempre bem caros ao país.

Corrija-se o que tiver que ser corrigido para haver uma escola pública de qualidade, para haver igualdade de oportunidades e para existir liberdade de escolha, investiguem-se os processos de implantação de equipamentos públicos e privados nos territórios e constatar-se-ão atipicidades na gestão pública e na gestão privada que suporta a actual oferta existente, mas em qualquer situação: não desestabilizem as crianças e os jovens. Qualquer análise da situação constatará que os colégios privados foram autorizados por governos PS e PSD, sendo ridículo colocar a questão meramente no patamar ideológico. Há responsabilidades partilhadas porque os contractos de associação não nasceram de geração espontânea.

Por exemplo, na saúde, ao mesmo tempo que os privados anunciam grandes lucros, o governo acaba de consagrar as condições para o livre acesso e circulação no Serviço Nacional de Saúde. Fê-lo com respeito pelos utentes, com sentido de equilíbrio e com respeito pelas dinâmicas sociais que superam as limitações geográficas compartimentadas que ainda é o quadro mental de muita gentinha que por aí anda. Não é conhecido incómodo relevante com a transferência de mais de quatro mil milhões de euros do Estado para o sector privado da saúde em 2015, não há nenhuma tentativa de impedir os anunciados investimentos de 200 milhões pelos privados na saúde ou reverter a destruição do quartel do Regimento junto ao Colombo. «Acabar com a mama», dizem.

Não é de Esquerda reorientar a «mama» para que mudem apenas os «mamões», perante a indiferença em relação aos que verdadeiramente importam, as pessoas destinatárias dos serviços públicos. Quando o cidadão deixa de estar no centro das políticas, algo vai mal.






O talibã ofendido