terça-feira, 20 de setembro de 2016


Medina sonhava ser Napoleão


Sofia Vala Rocha, SOL, 13 de Setembro de 2016

A Segunda Circular pode ter sido o «general Inverno»
de Fernando Medina

A segunda Circular só foi uma surpresa para quem não conhece Fernando Medina. Foi apresentada como a «obra do regime». Seria uma avenida de tipo francês, a imitar os Campos Elísios. Monumental, cheia de árvores. Teria um custo de 10 milhões de euros e iria revolucionar a grande área metropolitana de Lisboa. Intervenientes públicos qualificados mostraram dúvidas e reservas, mas isso não demoveu o presidente da Câmara de Lisboa. Esta semana, Medina recuou com o argumento pobre de que a culpa era do júri.

É a segunda vez que o executivo a que Fernando Medina preside – o PS coligado com o movimento político de Helena Roseta – tem uma derrota clamorosa. A primeira foram os terrenos da Feira Popular. Já os levaram à praça, em hasta pública, três vezes. Das três vezes, os responsáveis da CML fizeram declarações públicas a dizer que tinham muitos interessados. Ora os terrenos, pelos quais pedem 130 milhões de euros, continuam por vender.

O caso da Feira Popular é fácil de explicar. Por causa da demagogia dos partidos de esquerda, o projecto foi sendo tão alterado que já não há nenhum construtor, promotor ou investidor que o queira. A CML tem agora duas hipóteses: ou muda o projecto, favorecendo o negócio imobiliário e enfrentando politicamente a «geringonça», ou põe os terrenos em saldo, prejudicando as finanças públicas. Neste momento, creio, já nem terão coragem de os tentar vender com receio de passar uma vergonha.

Erradicar as barracas do Casal Ventoso, fazer a Expo, a Frente Ribeirinha ou o Túnel do Marquês foram grandes e estruturais mudanças na cidade de Lisboa. A Segunda Circular e a Feira Popular seriam o legado de Medina para apresentar à população. Prepararam tudo mal preparado – e são agora forçados a recuar, sem honra nem glória.

O folhetim da Segunda Circular, só por si, já seria grave, mas a somar ao da Feira Popular mostra uma certa propensão para a megalomania que acaba mal. Manda a verdade dizer que nem sequer é novidade. Já António Costa se tinha candidatado a Lisboa em 2009 prometendo uma terceira travessia sobre o Tejo e um novo aeroporto.

Entretanto, no dia-a-dia da cidade, o Intendente voltou a ser um mercado a céu aberto de droga (tráfico e consumo) e de prostituição, segundo as denúncias dos moradores. Bastou que António Costa de lá saísse e tudo voltou ao antigamente.

O bairro do Alto do Parque continua a ser conhecido como o «carrossel», por causa da prostituição. A rotunda do Areeiro continua um estaleiro. A Ribeira das Naus não teve solução.

Fernando Medina sonhou com os Campos Elísios, desfilando triunfal sob o colossal Arco do Triunfo. É bom ser sonhador e visionário, fazer obra. Embora convenha sempre lembrar como é que as obras são financiadas. Desde o início do mandato de 2013, a CML já vendeu 500 milhões de euros em património.

O desastre da Segunda Circular é bem capaz de ter sido o «general Inverno»
do presidente Medina.




   


O profeta e a desgraça


Alberto Gonçalves, Visão, 13 de Setembro 2016

Diz o Público que «ao líder do PSD, nem o Sol de Setembro trouxe um sorriso e prefere continuar a ser o profeta da desgraça deste governo». A sentença não integra um artigo de opinião ou o palpite de um funcionário do PS: está no início de uma reportagem «neutra» sobre a universidade de Verão da JSD e, afinal, esforça-se por não destoar do tom vigente. Nos últimos dias aumentaram notavelmente os ataques a Pedro Passos Coelho.

Da extrema-esquerda a gente conotada com o PSD, passando por gente que se julga conotada com o PSD, pelos senhores governantes, por serviçais assumidos ou dissimulados dos senhores governantes e por analistas que gostariam de ser sérios, meio mundo dá-se a trabalhos para tentar diminuir Pedro Passos Coelho. O tipo é um «catastrofista» que não aceita o caminho de felicidade que o País trilha. O tipo é um vendido que não acata os apelos à «coesão» de que o País necessita. O tipo é um ressabiado que não abraça o patriotismo que o País exige. A bem do País, o tipo devia calar-se. A bem do PSD, o tipo devia sair do PSD. A bem de Massamá, o tipo devia emigrar conforme forçou inúmeros desvalidos na Era das Trevas (2011-2015). O tipo é um demónio. O tipo é um estorvo. O tipo está a mais.

De facto, no clima em que vivemos há meses, uma coisa entre o cabaré grotesco e o crime organizado, talvez Pedro Passos Coelho esteja a mais. Desde logo, é dos raríssimos espécimes que insiste em notar evidências desagradáveis: as seitas que se apoderaram disto vão levar-nos à ruína; a ruína será imensamente pior do que os arremedos anteriores; as consequências da ruína serão pagas durante demasiado tempo e com demasiados custos. Qualquer pessoa sabe que tais trivialidades não andam nada, nada, nada longe da verdade. O problema é que a verdade não convém nada, nada, nada aos arranjinhos em curso.

Sobretudo Pedro Passos Coelho é condenado por existir. Discreta que seja – e calada que fosse –, a sua presença na chamada esfera pública é suficiente para evocar a artimanha que torceu os resultados eleitorais em prol de um oportunista e duas agremiações comunistas. E a sua coerência é um obstáculo a que a «direita» participe no festim que antecede o desastre. E a sua sensatez contrasta com as figuras de um Presidente que, se calhar com razão, confunde Portugal com as tardes de domingo na TVI. Não admira o ódio que todos lhe dedicam.

Claro que o ódio é proporcional à relevância. Aqui, confesso uma surpresa. Critiquei quase sempre Pedro Passos Coelho enquanto líder da oposição a Sócrates (e à dona Manuela, que hoje passeia rancor). Critiquei-o muitas vezes enquanto primeiro-ministro de um governo que, por receio e tradição, evitou reformas vitais. Agora descubro-lhe uma decência imprevisível em quem foi tutelado por Ângelo Correia. Sozinho, como um homem, Pedro Passos Coelho permanece, até ver, imune à fraude em que caímos. Não basta para nos salvar, que dos políticos apenas se pode esperar males menores ou maiores. Mas ajuda-nos a perceber a diferença. E a olharmos o futuro sem um sorriso tonto. Nem é difícil: quando a desgraça é certa, a profecia é mera formalidade.





segunda-feira, 19 de setembro de 2016


As perseguições mafiosas

ao juiz Carlos Alexandre


António José Vilela e Fernando EstevesSábado, 26 de Março de 2015


O juiz de instrução Carlos Alexandre não tem tido uma vida fácil. Nos últimos 10 anos, já o ameaçaram, invadiram-lhe a casa, tentaram atropelar-lhe a mulher e agora envenenaram-lhe o cão.

O animal de nome Bart, que lhe tinha sido oferecido pelo procurador João de Melo, morreu envenenado com remédio dos ratos. Durante semanas, o cão agonizou e acabou por morrer na semana passada. Suspeita-se que alguém tenha atirado para o quintal da casa do juiz um alimento misturado com veneno para ratos.

Estes casos já não são estranhos para o magistrado judicial que há mais de 10 anos lida com os processos mais complexos relacionados com criminalidade violenta e económico financeira. Quando estava colocado na Polícia Judiciária Militar, Carlos Alexandre chegou a ser ameaçado e temeu até ser agredido dentro das instalações daquela força policial que dependia hierarquicamente do ministro da Defesa Nacional. Na altura, Paulo Portas era o titular do cargo e o juiz tinha ordenado que o seu chefe de gabinete fosse colocado sob escuta por causa de um alegado negócio de compra de material militar.

Mais tarde, já colocado no Tribunal Central de Instrução Criminal,  invadiram-lhe a residência e deixaram-lhe uma velha pistola à vista que estava guardada numa gaveta. O juiz achou que se tratava de um aviso. Apesar de ter segurança 24 horas por dia, outros dois acontecimentos viriam a deixá-lo bastante preocupado, sobretudo porque em causa esteve a mulher Felisbela, que terá sido objecto de duas tentativas de atropelamento quando passava numa passadeira para peões.

Agora foi a vez do cão da família.






PETIÇÃO



Rogério de Moura enviou-lhe a seguinte Petição.

Caros Amigos,Acabei de ler e assinar a petição: «APOIO AO JUIZ CARLOS ALEXANDRE » no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT82973

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.

Obrigado.

Rogério de Moura

Esta mensagem foi-lhe enviada por Rogério de Moura (rdemoura007@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT82973






domingo, 18 de setembro de 2016


Carlos Alexandre incomoda


A folha de serviço


Eduardo Dâmaso, Sábado, 15 de Setembro de 2016

O juiz Carlos Alexandre já foi alvo de denúncias anónimas sobre contactos com jornalistas que nunca teve. Foi obrigado a um striptease salarial e a relatar a inspectores judiciais todos os rendimentos da família. Foi vasculhado por causa de um empréstimo de 4 mil euros num programa de TV dirigido por Sandra Felgueiras, filha da famosa arguida Fátima Felgueiras, que fez outro programa onde explorava alegadas «coincidências» entre as decisões do juiz e as notícias de um jornalista.

Foi «aconselhado», por superiores, a suavizar decisões sobre o crime de branqueamento em processos relacionados com Angola. Viu processos de obras em casa espiolhados e decisões suas achincalhadas por desembargadores da Relação de Lisboa que passaram mais de uma década em comissões de serviço nomeados pelos amigos políticos, com base em opiniões e não em argumentação jurídica. Viu os filhos ameaçados com pistolas deixadas em cima das respectivas fotografias.

Nunca teve uma repreensão do Conselho Superior de Magistratura. Tem quase trinta anos de serviço público, centenas de decisões acolhidas pelo direito e uma folha de serviço impecável. Tudo isso é indiferente aos pregadores evangélicos como Louçã e a outros que o macaqueiam, que reduzem tudo ao interesse indisfarçável que prosseguem e que não é outro senão safar Sócrates, mesmo que isso leve Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e Duarte Lima na mesma água do mesmo banho a deitar fora. Todos vítimas do malandro Carlos Alexandre e do iníquo Estado de direito em que vivemos… Grandes democratas!






O «caso» Carlos Alexandre


Elogio dos vermes


José Mendonça da CruzCorta-Fitas, 14 de Setembro de 2016


O juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista em que explicou quem era, e tudo o que disse de si está solidamente comprovado pela sua vida, a sua carreira, e o testemunho de quem o conhece ou com ele trabalhou. Mas o juiz Carlos Alexandre cometeu um erro grosseiro de avaliação: avaliou mal o país e o tempo em que vive, incomensuravelmente mais rascas do que julga ou desejaria. Compreende-se, pois, que logo lhe tenham caído em cima os barões do país pardo e da corrupção, obviamente acolhidos e aclamados na comunicação social avençada, e inevitavelmente acompanhados daqueles idiotas úteis que seguem qualquer carroça de pruridos politicamente correctos, na ilusão de mostrar equilíbrio e equidistância.

O juiz Carlos Alexandre avaliou mal.

Declarou-se católico praticante, e disse que a fé o estrutura e fortalece. Ofendeu o credo «laico» da redutora acepção socialista, menosprezou jacobinos e maçons.

Contou com alegria que tem uma família sólida e tradicional, com a qual se sente feliz. Desconsiderou, pois, as virtudes fracturantes.

Revelou serenamente que trabalha muito, ganha pouco, e vive uma vida de austeridade e contenção. Mostrou-se, portanto, displicente com uma governação que virou a página da austeridade, que defende a redução do horário de expediente para os trabalhadores (desde que do sector público), e celebra o fausto, (desde que reservado a quem tem políticas para as pessoas). E, pior, desprezou as nobres carreiras daqueles defensores da coisa pública que, à força do seu dinâmico optimismo, saltaram do Clio para o Mercedes S, do apartamento para o palacete e a casa de férias, da mediania para o enriquecimento sem causa ou explicação, do anonimato para a gloriosa inutilidade de algum observatório ou fundação.

O juiz Carlos Alexandre apresentou-se, em resumo, (e a sua vida e carreira, repete-se, parecem confirmar que é assim) como um homem sério e bom, incorruptível, estranho ao deslumbramento das mordomias, do dinheiro a rodos, dos pied à terre em Paris. Mais grave ainda: o juiz pareceu manifestar uma inabalável fé na Justiça, mesmo naqueles casos a que o programa do PS chama perseguição a políticos (seus).

Eis, pois, em pormenor e por extenso, o mais álacre manifesto contra o tempo novo português.

Que juiz deve servir, então, se Carlos Alexandre, que vai tão ao arrepio do miasma, não serve?

É fácil. Algum magistrado fiel como Santos Silva ou Silva Pereira; impoluto como Rocha Andrade; sensato, contido e escrupuloso como Costa; intocável como Ferro Rodrigues; polido como Galamba; sério como César; equidistante como Rangel; insuspeito como Nascimento; trabalhador como Nogueira; crível como Centeno; e que, no entanto, fosse frugal... como Sócrates.





quarta-feira, 14 de setembro de 2016


A preguiça mental contra a acção



Cid Alencastro

Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — «dá trabalho»… «dá preocupação»… «exige empenho»… «não é comigo»… — a pessoa acaba por ficar meio aparvalhada e deixa-se levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.

A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço. Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem é-me muito cómoda para exprimir esse «engorduramento» das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objectiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente «engordurados» da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.

Esse gosto mórbido da inacção mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de Género, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimónias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o «louco» olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.

Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!

O problema é exactamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar as suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem corajosamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.

Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores transformaram-se em lobos.