sexta-feira, 6 de janeiro de 2017


Português, língua estrangeira?




Mário João Fernandes

A defesa da língua portuguesa é uma responsabilidade de todos, falantes e escreventes.

Janeiro é o mês dos balanços. E os ditos são feitos com recurso à palavra falada e escrita. Ouvi e li coisas estranhas por estes dias. Não tanto pelos conteúdos, já que estas semanas são uma silly season invernal, um vale-tudo de apanhados e de pés de microfone. Os atropelos à língua, a falada pelos leitores de teleponto e a escrita nos rodapés da televisão, provocaram-me maiores agonias do que as queixas hepáticas motivadas pelos excessos festivos. Não foram só os erros ortográficos e o mais absoluto desprezo pelas regras de concordância de género, número, tempo ou modo. Dois mil e dezasseis fechou com um número muito significativo de luso-falantes e de luso-escreventes que não conhecem minimamente o significado das palavras, as regras de gramática quanto ao seu uso e o porquê e para quê da boa utilização da língua. A consoada referiu o vinho «muito incorporado», o balanço do ano futebolístico não esqueceu a participação de um jogador numa «sociedade de inversão» (fiquei a aguardar com esperança a queixa por difamação e injúrias movida pelo ludopedista), na noite de passagem de ano, o taxista de serviço opinou sobre o trânsito, «controla-se a rótunda», as mensagens oficiais e oficiosas desejaram coisas que, pretendendo ser boas, se revelaram, à luz do dicionário, malignas.

Como é que chegámos aqui? O processo de erosão começou há muito, com a extinção do ensino de latim e de grego, como se o português fosse uma novilíngua recebida de uma galáxia exterior. Desaparecida a oferta, desapareceram também os professores. Seria interessante que os habitantes de um certo edifício na Avenida Cinco de Outubro comparassem quantos professores de Latim e Grego existem por milhar de habitantes nos países que têm como língua oficial uma língua românica.

...excepto para quem nunca tem dúvidas e raramente se engana e implementou
o «Acordo Ortográfico»: 
Cavaco, com o seu «ajudante» Santana Lopes.
A desgraça prosseguiu com a passagem de uma aprendizagem livresca para uma aprendizagem televisiva, acompanhada de um crescente analfabetismo funcional por parte dos falantes de referência, que há muito deixaram de ser escolhidos pelo conhecimento ou domínio da língua portuguesa.

O pico da miséria linguística chegou com a simplificação tecnológica do uso da língua, com o proliferar de sms e emails escritos em crioulo tecnológico. A simples visita às caixas de mensagens dos principais órgãos de comunicação social permite constatar o óbvio: a língua em que muitos escrevem em Portugal só remotamente é aparentada com o português.

A certidão de óbito da língua escrita chegou com a convivência entre a norma anterior ao novo acordo ortográfico e a do novo acordo ortográfico. A ignorância ficou legitimada pela convivência anárquica entre duas normas contraditórias.

Segue-se a pergunta óbvia: como é que saímos disto? Como é que recuperamos os mínimos na utilização da língua portuguesa? Há que retomar o estudo do latim e do grego. Não só nos cursos humanísticos, mas na formação geral, para que se perceba que as palavras da língua portuguesa não nasceram com o Google. Não há qualquer razão para que as tecnologias da informação não possam ser utilizadas para reforçar a aprendizagem da língua portuguesa, não só por estrangeiros, mas também por portugueses. Mas não podemos continuar a ter referentes televisivos que não dominam a língua em que se expressam.

Dois mil e dezasseis foi um ano dado a manifestações folclóricas de patriotismo. Gostaria que 2017 fosse o ano da defesa da pátria, começando pela língua. É uma tarefa diária e para todos. E não é fácil: para muitos, o português é já uma língua estrangeira.





domingo, 1 de janeiro de 2017


Para lutar eficazmente contra os terroristas:

o reconhecimento facial




Uma cara pode ser identificada em tempo real

entre mais de trinta milhões a partir de uma simples foto.

Le récent périple accompli par le terroriste Anis Amri, traversant l’Allemagne, les Pays-Bas, la Belgique, la France et l’Italie, sans être repéré, prouve – mais cela n’était pas nécessaire – l’impuissance de nos moyens actuels pour lutter efficacement contre le terrorisme. Or, ce terrorisme ne peut que se poursuivre et peut-être même s’amplifier après que tous les combattants de Daech encore en vie se seront fondus à travers notre continent et seront devenus invisibles jusqu’à leur prochaine action meurtrière.

Quelle que soit l’efficacité des services de renseignement, ils ne pourront faire face et prévenir toutes ces attaques.

Il y a une solution, elle est imparable, il faudra y parvenir tôt ou tard, et il serait souhaitable que ce soit tôt avant de comptabiliser encore des centaines de victimes : le système de reconnaissance faciale, qui analyse les images en temps réel.

Les révélations d’Edward Snowden sur la surveillance faciale mise en place aux USA, illustrée par l’excellente série télévisée canadienne Person of Interest, en apporte la certitude.

Les traits marquants de chaque visage sont uniques: orbites, nez, menton.

Un visage peut être identifié en temps réel, parmi plus de trente millions d’autres visages, à partir d’une simple photo prise de n’importe quel appareil photo numérique compact grand public, soit d’une caméra de vidéosurveillance mais également d’un portrait sur les réseaux sociaux (par exemple Facebook), et cela grâce à un réseau de caméras de vidéosurveillance.

L’individu surveillé ou recherché peut donc être identifié dans une foule en temps réel et son portrait parvient instantanément à l’opérateur.

L’individu peut, ainsi, être filé quel que soit le lieu où il se trouve, où il se déplace.

Cette surveillance faciale peut être installée dans tous les points sensibles: aéroports, gares, grandes surfaces, rassemblement, stades, etc.

Tous les «fichés S» pourraient ainsi être identifiés en temps réel dans leurs déplacements. Si cette procédure avait été mise en place, de Mohammed Merah à Anis Amri (janvier et novembre 2015 à Paris, 14 juillet 2016 à Nice), tous connus, photographiés et recherchés, des dizaines de victimes auraient pu être épargnées.

Ce procédé a été présenté par Hitachi Kokusai Electric, Inc., au salon Security Show, au Japon. D’autres systèmes similaires sont également à étudier: le fameux Kinect de Microsoft ou le redoutable Wawi Xtion d’Asus.

Tout cela a évidemment un coût financier très important, mais est-ce que nos moyens de protection inefficaces actuels (90.000 militaires et policiers, des caméras qui ne servent qu’à constater le passage a posteriori – donc trop tard – d’un terroriste, des agents de sécurité en nombre insuffisant, et j’en passe) n’ont pas également un coût très important pour des résultats insuffisants?

Ah, oui ! Il y aura bien des opposants, la Ligue des droits de l’homme par exemple; ces opposants au seul moyen imparable de lutte contre le terrorisme se feront, ainsi, les complices objectifs de ces mêmes terroristes et porteront une part de responsabilité dans la longue liste des victimes à venir.






O verdadeiro balanço de 2016








quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


«Mariconços» e «paneleirices»


Alberto Gonçalves, Sábado, 27 de Dezembro de 2016

Numa tentativa de explicar a ascensão de Trump, Seth MacFarlane, o criador de Family Guy, disse há tempos que o lado dele, a esquerda, «tornou-se um pouco irracional quando é preciso separar o trivial do profundo». E acrescentou: «Somos incapazes de distinguir as injustiças das coisas que nos ofendem.»

A chatice é que as coisas que os ofendem são imensas, e a sensibilidade aumenta a cada dia. Na América, por exemplo, pode arruinar-se uma pessoa após publicar uma graçola «inconveniente» no Facebook.

MacFarlane lembra o caso de Justine Sacco, a senhora que, durante uma viagem em 2014, deixou na Net piadas escritas em Heathrow sobre o cheiro dos alemães, a dentição dos britânicos e a sida em África. As primeiras ficaram impunes, mas a terceira levou a que, ao aterrar na Cidade do Cabo, a ex-anónima de 30 anos descobrisse que era, mundialmente, o ódio n.º 1 do Twitter. Descobriu também que perdera o emprego, o sossego e, decerto, a possibilidade de uma vida decente.

Portugal ainda não atingiu tamanho grau de desenvolvimento. Porém, vontade não falta. Na semana passada, Ricardo Araújo Pereira resolveu queixar-se dos seus parceiros ideológicos, leia-se os vigilantes atentos ao indivíduo que arrisca falar, mesmo que fora do contexto, em «mariconços» ou «paneleirices». Os vigilantes não perderam tempo a atiçar a fogueira. Nas «redes sociais» e em colunas de opinião, as criaturas do costume e os anónimos que apreciam as criaturas do costume saltaram a atacar a «intolerância» e o «preconceito» do Ricardo.

A fúria só não foi pior porque, afinal, o Ricardo não é conotado com a «direita». E porque, apesar do seu talento, o Ricardo partilha uma característica com os colegas sem talento do humor nacional: nunca, ou quase nunca, belisca de facto as «causas» de estimação da seita. Ao contrário do que berra uma devota do género, a questão não é que aqui não haja a vocação persecutória que se encontra nos EUA. Por via da tradição indígena para a submissão voluntária, o que não há é tantos pretextos para a perseguição.

O que constitui um pretexto ou o que diferencia o admissível do (ai que horror) inadmissível? No entender dos indignados profissionais, o bom senso. E o que é o bom senso? É tudo o que não aflige essas almas delicadas. Insultar cristãos, judeus, brancos, pretos (se representantes da troika), homossexuais (se corridos da festa do Avante!), mulheres (se avessas ao socialismo), aleijados (se ministros alemães) e até cancerosos (se cônjuges de neoliberais) integra o bom, melhor, o óptimo senso. O resto é blasfémia.

Vale que, pelo menos enquanto não se nomear uma comissão para avaliar e punir os «excessos», o castigo dos blasfemos é o gozo da liberdade. E o prazer de rir do dedito acusatório dos Torquemadas de trazer por casa, profissão que parece atrair os maiores idiotas, perdão, retardados, perdão, doentes mentais, perdão, os mais especiais sujeitos que o País tem para oferecer. E tem muitos, embora ninguém os queira.