sábado, 14 de janeiro de 2017


Armas insufláveis, políticas religiosas e conservadoras:

a «maskirovka» forja novas mentiras sem cessar


«MIG 31» sendo insuflado perto de Moscovo.

Luis Dufaur (*)

Algumas das mais modernas armas russas puderam ser vistas e fotografadas num campo perto de Moscovo. Ali, trabalhadores manipulando tecidos sintéticos verdes e bombas de ar criavam armas impressionantes em questão de minutos, segundo informou o The New York Times.

O assustador MIG-31 cinza escuro aparecia subitamente como que do nada com a estrela vermelha nas suas asas. Parecia muito real sobretudo se fosse visto a 300 metros.

Mas na ex-URSS este truque é o mais velho da guerra. Faz lembrar o cavalo de Tróia, aliás este mais poético, ou a ordem corânica de Maomé  de os soldados velhos pintarem os cabelos brancos para parecerem mais jovens e fortes…

A Rússia montou um arsenal de disfarces e trapaças para as suas forças armadas, dentro do contexto mais vasto da guerra rotulada «maskirovka» (literalmente = dissimulação, engano).

Veja mais em Maskirovka: a guerra não-militar que invade e conquista.


Inflando um «camião com mísseis» perto de um «MIG 31» já pronto

A Maskirovka tem um papel cada vez mais importante para as ambições geopolíticas imperialistas da «nova-URSS».

«Se estudar as grandes batalhas da História, perceberá que o uso de trapaças vence sempre», disse o engenheiro militar Alexey Komarov. «Ninguém vence a jogar limpo».

Komarov supervisiona a venda de armas na Rusbal, ou Balões Russos.

A empresa fornece ao Ministério da Defesa da Rússia uma das ameaças militares menos conhecidas nos países que podem ser as suas futuras vítimas: um crescente arsenal de tanques, jactos e lançadores de mísseis infláveis.

A Rússia de Putin está a regressar ao cenário geopolítico, imiscuindo-se na vida política dos países ocidentais, empregando tácticas escondidas.

Silencia inimigos no exterior, manipula a Igreja ortodoxa e promove uma fingida contra-revolução conservadora conquistando pecuniariamente políticos e partidos nos países que quer submeter.

Uma farta rede de trolls, antigas redes de influência da URSS agora reactivadas e novas agências de notícias, TV ou Internet difundem falsas informações calculadas para enganar as audiências ou os internautas no Ocidente.

A «maskirovka» tem que manter o inimigo na incerteza, jamais admitir as verdadeiras intenções e usar todos os meios, tanto propagandísticos quanto militares, para conceder aos soldados do país a vantagem da surpresa, e revestir aos políticos seduzidos do Ocidente de uma máscara de conservadorismo de data recente.

Putin quer seduzir políticos ocidentais de recente conversão a posições «cristãs».
Na foto com François Fillon, então ministro de Relações Exteriores de França

A doutrina não hesita em apelar à desinformação política de alto nível e o uso de formas astuciosamente evasivas de comunicação.

É claro que as armas infláveis se encaixam bem nos estratagemas da maskirovka.

É um velho recurso para quem está em inferioridade de condições de combate, mas se é útil contra adversários decadentes, então vale tudo.

Vídeos no Youtube encarregam-se de mostrar as fabulosas novas armas que vão prostrar a NATO e os EUA enquanto os operários enchem de ar sacolas que virarão modernos tanques, aviões, lança mísseis e tudo o que servir para enganar sobre o verdadeiro potencial bélico russo.

A maior utilidade vem a revelar-se na camuflagem de ideias através da desinformação. A «nova-Rússia» apresenta-se como religiosa e conservadora se isso serve para desviar a atenção do adversário, dividi-lo e levá-lo à confusão e a uma capitulação.

Praticamente todos os grandes movimentos de tropas russas e soviéticas dos últimos 50 anos, da Primavera de Praga ao Afeganistão, Tchetchénia e Ucrânia, começaram por um truque simples e efectivo: soldados a chegar ao local de combate à paisana, explica o jornal americano.

Em 1968, por exemplo, um voo da Aeroflot, a companhia estatal de aviação soviética, transportando um número desproporcional de homens jovens e saudáveis, que subsequentemente capturaram o aeroporto de Praga.

Em 1983, soldados soviéticos disfarçados de turistas viajaram para a Síria, numa manobra que ficou conhecida como «camarada turista».

A aparência de misteriosos soldados usando uniformes camuflados em Cabul, no Afeganistão, e Grozny, na Tchetchênia, serviu como presságio ao envio de muito mais tropas, em 1979 e 1994.

O tanque T80 ainda não está pronto para enganar satélites americanos

Foi o caso dos «homenzinhos verdes» na Crimeia a partir de Fevereiro de 2014, ou do cerne das milícias separatistas «ucranianas» recrutadas no coração da Rússia ou transportadas directamente de guarnições do exército russo.

Estes antecedentes preocupam os estrategas e pensadores clarividentes, nos países vizinhos. Mas não tiram o sono aos decadentes. Ou aos cúmplices...

A Rusbal não revela quantos tanques infláveis já produziu, porque os números são sigilosos.

Mas a directora da firma Maria A. Oparina reconheceu que a produção cresceu muito nos últimos 12 meses. Emprega integralmente a maioria dos seus operários na costura das armas infláveis, na sua divisão militar.

«Na guerra, não existem acordos de cavalheiros», repete Oparina. «quem tiver os melhores truques sobrevive».

Vladimir Putin sabe bem disso, e paga o desenvolvimento das «novas armas» para enganar mais os «decadentes» ocidentais.


( * ) Luis Dufaur é escritor, jornalista, conferencista de política internacional
e colaborador da ABIM





segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


A eutanásia causa inquietude no Canadá:

«Não pensava que seria tão fácil matar

com esta nova lei»


La amplitud de la norma canadiense ya está produciendo los primeros abusos:
personas a quienes se condiciona para que consientan en su muerte.

Leone Grotti, ReligionenLibertad, 9 de Janeiro de 2017

La ley canadiense que promueve la eutanasia es aún más permisiva que las leyes belga u holandesa, hasta el punto de que el inicio de su aplicación se ha traducido en un número elevadísimo de muertes. Así lo analiza Leone Grotti en Tempi:

La eutanasia en Canadá fue legalizada en junio de 2016 y por lo menos 744 personas ya han muerto con la inyección letal. Los datos, difundidos por CTV News, son altísimos, pero según la doctora de Vancouver Ellen Wiebe, que ha declarado que este año ha matado por lo menos a 40 pacientes, «los números aumentarán, estoy segura de ello. Creo que alcanzaremos a Holanda y Bélgica porque tenemos leyes similares. Esto significa que la eutanasia representará el 5% de las muertes del país».

Ellen Wiebe ha aplicado la ley a cuarenta personas en medio año.
Basta con que ella haya creído que sus pacientes cumplían los criterios legales.

La ley

La doctora se equivoca, porque la ley canadiense es mucho menos restrictiva que las de Bélgica y Holanda. De hecho, según la ley C-14, para que te maten hay que tener una enfermedad incurable para la cual «la muerte natural es razonablemente previsible». El problema es que la enfermedad incurable y su razonable previsibilidad no son establecidos por datos médicos objetivos; basta que «el personal médico o de enfermería crea que la persona cumple todos los criterios». No es necesario, por lo tanto, que la ley sea respetada; basta que el médico piense que lo es.

Inmunidad total

La diferencia es importante, sobre todo porque la ley especifica que un médico no puede ser acusado de homicidio ni siquiera cuando su opinión sobre el respeto de los criterios de la ley se revele «equivocada». Por último, el texto de la ley garantiza una inédita inmunidad a «todo» el que «haga algo» para proporcionar la muerte de un tercero que la haya pedido.

Matar a los deprimidos

¿Cómo se pueden impedir abusos de cualquier tipo? No se puede. De hecho, tras apenas seis meses ya hay testimonios dramáticos. Will Johnston es un médico de familia de Vancouver y desde hace meses relata casos en los que la ley ha sido violada, sin que el gobierno o el sistema judicial de Canadá se sientan en la obligación de intervenir de algún modo.

El doctor Will Johnston, contrario a la legalización de la eutanasia, relata la existencia
de distintos casos de abusos amparados por la amplitud de la norma.

Uno de estos casos atañe a un hombre, cuyo nombre ha sido omitido por cuestión de privacidad, con una enfermedad neurológica que le dejó parcialmente inválido. El hombre «al que yo visité y que estaba muy lejos de morir, tenía una fuerte depresión. Ya no salía de casa, había perdido la esperanza y sentía que su vida no tenía sentido. Por esto quería morir».

«Es tan fácil...»

Ahora bien, escribe Johnston, «a cualquier otra persona no inválida se le habría ofrecido ayuda psicológica parar salir de esta difícil situación». En cambio, este hombre fue muerto por eutanasia a manos de una doctora de Vancouver, que por teléfono le dijo a la esposa que «se le puede dar la vuelta a la ley declarando que en cualquier momento puede morir a causa de una infección por lo que su muerte, en consecuencia, es 'razonablemente previsible'». Johnston volvió a ver a la esposa de este hombre después de que fuera matado con la inyección letal y ésta le dijo: «No pensaba que fuera tan fácil» matar «con la nueva ley».

«Estamos un poco preocupados»

Ante estos casos las palabras de un docente de la Universidad de Toronto, Trudo Lemmens, recogidas por CTV News, parecen casi un eufemismo: «Estamos un poco preocupados porque personas vulnerables o que se encuentran en situación de vulnerabilidad – o por motivos económicos o porque la ayuda médica solicitada no está disponible – podrían ser presionadas consciente o inconscientemente para elegir la asistencia médica de la muerte».

El profesor Lemmens señala el riesgo de que los pacientes sean
presionados para pedir que los maten.

La verdadera «opresión»

Según el texto de la ley, el gobierno tendrá que redactar un informe oficial sobre el desarrollo de la ley sólo cinco años después de su aprobación, es decir, en el año 2021.

Mientras tanto, se podrá llevar a cabo todo tipo de abuso en la ilegalidad más total, desde el momento que los casos de eutanasia deben ser denunciados por los propios médicos, pero en el caso de que no quieran hacerlo por cualquier motivo ningún órgano ha sido predispuesto para el control. Mientras tanto, médicos como Ellen Wiebe están muy preocupados por todos los hospitales y clínicas religiosas que no quieren permitir la eutanasia en las propias estructuras por razones de conciencia: «Tenemos muchos centros que ni siquiera permiten discutir los temas del final de la vida. Creo que ésta es una verdadera forma de opresión».


Traducción de Helena Faccia Serrano (diócesis de Alcalá de Henares).





sexta-feira, 6 de janeiro de 2017


Português, língua estrangeira?




Mário João Fernandes

A defesa da língua portuguesa é uma responsabilidade de todos, falantes e escreventes.

Janeiro é o mês dos balanços. E os ditos são feitos com recurso à palavra falada e escrita. Ouvi e li coisas estranhas por estes dias. Não tanto pelos conteúdos, já que estas semanas são uma silly season invernal, um vale-tudo de apanhados e de pés de microfone. Os atropelos à língua, a falada pelos leitores de teleponto e a escrita nos rodapés da televisão, provocaram-me maiores agonias do que as queixas hepáticas motivadas pelos excessos festivos. Não foram só os erros ortográficos e o mais absoluto desprezo pelas regras de concordância de género, número, tempo ou modo. Dois mil e dezasseis fechou com um número muito significativo de luso-falantes e de luso-escreventes que não conhecem minimamente o significado das palavras, as regras de gramática quanto ao seu uso e o porquê e para quê da boa utilização da língua. A consoada referiu o vinho «muito incorporado», o balanço do ano futebolístico não esqueceu a participação de um jogador numa «sociedade de inversão» (fiquei a aguardar com esperança a queixa por difamação e injúrias movida pelo ludopedista), na noite de passagem de ano, o taxista de serviço opinou sobre o trânsito, «controla-se a rótunda», as mensagens oficiais e oficiosas desejaram coisas que, pretendendo ser boas, se revelaram, à luz do dicionário, malignas.

Como é que chegámos aqui? O processo de erosão começou há muito, com a extinção do ensino de latim e de grego, como se o português fosse uma novilíngua recebida de uma galáxia exterior. Desaparecida a oferta, desapareceram também os professores. Seria interessante que os habitantes de um certo edifício na Avenida Cinco de Outubro comparassem quantos professores de Latim e Grego existem por milhar de habitantes nos países que têm como língua oficial uma língua românica.

...excepto para quem nunca tem dúvidas e raramente se engana e implementou
o «Acordo Ortográfico»: 
Cavaco, com o seu «ajudante» Santana Lopes.
A desgraça prosseguiu com a passagem de uma aprendizagem livresca para uma aprendizagem televisiva, acompanhada de um crescente analfabetismo funcional por parte dos falantes de referência, que há muito deixaram de ser escolhidos pelo conhecimento ou domínio da língua portuguesa.

O pico da miséria linguística chegou com a simplificação tecnológica do uso da língua, com o proliferar de sms e emails escritos em crioulo tecnológico. A simples visita às caixas de mensagens dos principais órgãos de comunicação social permite constatar o óbvio: a língua em que muitos escrevem em Portugal só remotamente é aparentada com o português.

A certidão de óbito da língua escrita chegou com a convivência entre a norma anterior ao novo acordo ortográfico e a do novo acordo ortográfico. A ignorância ficou legitimada pela convivência anárquica entre duas normas contraditórias.

Segue-se a pergunta óbvia: como é que saímos disto? Como é que recuperamos os mínimos na utilização da língua portuguesa? Há que retomar o estudo do latim e do grego. Não só nos cursos humanísticos, mas na formação geral, para que se perceba que as palavras da língua portuguesa não nasceram com o Google. Não há qualquer razão para que as tecnologias da informação não possam ser utilizadas para reforçar a aprendizagem da língua portuguesa, não só por estrangeiros, mas também por portugueses. Mas não podemos continuar a ter referentes televisivos que não dominam a língua em que se expressam.

Dois mil e dezasseis foi um ano dado a manifestações folclóricas de patriotismo. Gostaria que 2017 fosse o ano da defesa da pátria, começando pela língua. É uma tarefa diária e para todos. E não é fácil: para muitos, o português é já uma língua estrangeira.





domingo, 1 de janeiro de 2017


Para lutar eficazmente contra os terroristas:

o reconhecimento facial




Uma cara pode ser identificada em tempo real

entre mais de trinta milhões a partir de uma simples foto.

Le récent périple accompli par le terroriste Anis Amri, traversant l’Allemagne, les Pays-Bas, la Belgique, la France et l’Italie, sans être repéré, prouve – mais cela n’était pas nécessaire – l’impuissance de nos moyens actuels pour lutter efficacement contre le terrorisme. Or, ce terrorisme ne peut que se poursuivre et peut-être même s’amplifier après que tous les combattants de Daech encore en vie se seront fondus à travers notre continent et seront devenus invisibles jusqu’à leur prochaine action meurtrière.

Quelle que soit l’efficacité des services de renseignement, ils ne pourront faire face et prévenir toutes ces attaques.

Il y a une solution, elle est imparable, il faudra y parvenir tôt ou tard, et il serait souhaitable que ce soit tôt avant de comptabiliser encore des centaines de victimes : le système de reconnaissance faciale, qui analyse les images en temps réel.

Les révélations d’Edward Snowden sur la surveillance faciale mise en place aux USA, illustrée par l’excellente série télévisée canadienne Person of Interest, en apporte la certitude.

Les traits marquants de chaque visage sont uniques: orbites, nez, menton.

Un visage peut être identifié en temps réel, parmi plus de trente millions d’autres visages, à partir d’une simple photo prise de n’importe quel appareil photo numérique compact grand public, soit d’une caméra de vidéosurveillance mais également d’un portrait sur les réseaux sociaux (par exemple Facebook), et cela grâce à un réseau de caméras de vidéosurveillance.

L’individu surveillé ou recherché peut donc être identifié dans une foule en temps réel et son portrait parvient instantanément à l’opérateur.

L’individu peut, ainsi, être filé quel que soit le lieu où il se trouve, où il se déplace.

Cette surveillance faciale peut être installée dans tous les points sensibles: aéroports, gares, grandes surfaces, rassemblement, stades, etc.

Tous les «fichés S» pourraient ainsi être identifiés en temps réel dans leurs déplacements. Si cette procédure avait été mise en place, de Mohammed Merah à Anis Amri (janvier et novembre 2015 à Paris, 14 juillet 2016 à Nice), tous connus, photographiés et recherchés, des dizaines de victimes auraient pu être épargnées.

Ce procédé a été présenté par Hitachi Kokusai Electric, Inc., au salon Security Show, au Japon. D’autres systèmes similaires sont également à étudier: le fameux Kinect de Microsoft ou le redoutable Wawi Xtion d’Asus.

Tout cela a évidemment un coût financier très important, mais est-ce que nos moyens de protection inefficaces actuels (90.000 militaires et policiers, des caméras qui ne servent qu’à constater le passage a posteriori – donc trop tard – d’un terroriste, des agents de sécurité en nombre insuffisant, et j’en passe) n’ont pas également un coût très important pour des résultats insuffisants?

Ah, oui ! Il y aura bien des opposants, la Ligue des droits de l’homme par exemple; ces opposants au seul moyen imparable de lutte contre le terrorisme se feront, ainsi, les complices objectifs de ces mêmes terroristes et porteront une part de responsabilité dans la longue liste des victimes à venir.






O verdadeiro balanço de 2016








quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


«Mariconços» e «paneleirices»


Alberto Gonçalves, Sábado, 27 de Dezembro de 2016

Numa tentativa de explicar a ascensão de Trump, Seth MacFarlane, o criador de Family Guy, disse há tempos que o lado dele, a esquerda, «tornou-se um pouco irracional quando é preciso separar o trivial do profundo». E acrescentou: «Somos incapazes de distinguir as injustiças das coisas que nos ofendem.»

A chatice é que as coisas que os ofendem são imensas, e a sensibilidade aumenta a cada dia. Na América, por exemplo, pode arruinar-se uma pessoa após publicar uma graçola «inconveniente» no Facebook.

MacFarlane lembra o caso de Justine Sacco, a senhora que, durante uma viagem em 2014, deixou na Net piadas escritas em Heathrow sobre o cheiro dos alemães, a dentição dos britânicos e a sida em África. As primeiras ficaram impunes, mas a terceira levou a que, ao aterrar na Cidade do Cabo, a ex-anónima de 30 anos descobrisse que era, mundialmente, o ódio n.º 1 do Twitter. Descobriu também que perdera o emprego, o sossego e, decerto, a possibilidade de uma vida decente.

Portugal ainda não atingiu tamanho grau de desenvolvimento. Porém, vontade não falta. Na semana passada, Ricardo Araújo Pereira resolveu queixar-se dos seus parceiros ideológicos, leia-se os vigilantes atentos ao indivíduo que arrisca falar, mesmo que fora do contexto, em «mariconços» ou «paneleirices». Os vigilantes não perderam tempo a atiçar a fogueira. Nas «redes sociais» e em colunas de opinião, as criaturas do costume e os anónimos que apreciam as criaturas do costume saltaram a atacar a «intolerância» e o «preconceito» do Ricardo.

A fúria só não foi pior porque, afinal, o Ricardo não é conotado com a «direita». E porque, apesar do seu talento, o Ricardo partilha uma característica com os colegas sem talento do humor nacional: nunca, ou quase nunca, belisca de facto as «causas» de estimação da seita. Ao contrário do que berra uma devota do género, a questão não é que aqui não haja a vocação persecutória que se encontra nos EUA. Por via da tradição indígena para a submissão voluntária, o que não há é tantos pretextos para a perseguição.

O que constitui um pretexto ou o que diferencia o admissível do (ai que horror) inadmissível? No entender dos indignados profissionais, o bom senso. E o que é o bom senso? É tudo o que não aflige essas almas delicadas. Insultar cristãos, judeus, brancos, pretos (se representantes da troika), homossexuais (se corridos da festa do Avante!), mulheres (se avessas ao socialismo), aleijados (se ministros alemães) e até cancerosos (se cônjuges de neoliberais) integra o bom, melhor, o óptimo senso. O resto é blasfémia.

Vale que, pelo menos enquanto não se nomear uma comissão para avaliar e punir os «excessos», o castigo dos blasfemos é o gozo da liberdade. E o prazer de rir do dedito acusatório dos Torquemadas de trazer por casa, profissão que parece atrair os maiores idiotas, perdão, retardados, perdão, doentes mentais, perdão, os mais especiais sujeitos que o País tem para oferecer. E tem muitos, embora ninguém os queira.