quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O que defendemos no debate sobre a eutanásia


Isabel Galriça Neto, Observador, 22 de Fevereiro de 2017

Na Holanda em 2015 praticou-se uma eutanásia a cada hora e meia. De pessoas com doença mental, pessoas que não pediram para morrer, pessoas sem situações de terminalidade, pessoas cansadas de viver.

Neste debate sobre a legalização da eutanásia defendemos a inviolabilidade da Vida humana, o respeito pela Dignidade e pela Liberdade.

Este não é de todo um debate confessional – como querem fazer crer —, talvez para acentuar um preconceito subtil de que sendo um debate religioso seria uma coisa retrógrada, um preconceito que confunde a sociedade laica em que vivemos com uma sociedade anti-religiosa. O debate, ainda que politizado, é claramente sobre que valores queremos ter na sociedade moderna para dar resposta ao sofrimento dos mais vulneráveis.

Defendemos a protecção da vida e a Dignidade. Entendemos que não é preciso escolher ser morto por outro para ter Dignidade na morte, aliás ser morto por outra pessoa é provavelmente a forma menos digna de se morrer. Defendemos a Dignidade enquanto valor intrínseco e patrimonial inegociável do ser Humano, pelo que para nós, e independentemente das circunstâncias, não há vidas que valem a pena ser vividas e outras não. É a vida que deve ter Dignidade, até ao fim, existindo hoje indicações rigorosas e meios de intervenção claros que não permitem que se prolongue a vida das pessoas com doenças avançadas e em sofrimento à custa de mais sofrimento com tratamentos inúteis.

Numa matéria literalmente de vida ou de morte como esta, com a relevância que a rodeia, não são admissíveis imprecisões e eufemismos que enviesam o debate, acrescem demagogia e pouco esclarecem: por exemplo, não se trata de um direito a morrer nem de uma morte assistida – trata-se sim de criar um pretenso direito a ser morto por outra pessoa; não se trata de morte digna – mal estaríamos se apenas os homicídios a pedido definissem a dignidade na morte; e não se trata de abranger apenas situações de fim de vida, pois no articulado do ante-projecto não são claramente excluídas outras situações de sofrimento, como situações de sofrimento existencial e com muito tempo de vida pela frente. Faz-se crer que serão situações de excepcionalidade, que depois o próprio articulado não permite de todo garantir.

Defende-se uma certa visão distorcida da Autonomia, em nosso entender irrealista e incorrecta: a ideia de que a autonomia é igual a uma autodeterminação absoluta em que o individualismo se estabelece e se ignoram as consequências do exercício das liberdades no Bem Comum. Se a autonomia fosse um valor absoluto, não seriam recusados pedidos nem se reservaria esta opção apenas para situações de fim de vida, e não seriam médicos a aprovar a decisão, esses sim os verdadeiros decisores que vêem o seu poder reforçado. A eventual legitimação e aplicação das propostas defendidas levaria a uma aparente «normalização» do matar a pedido e a uma banalização daquilo que consideramos um retrocesso na nossa sociedade. O que se iria impor seria uma visão apoucada do ser humano, que teria consequências perigosas no Bem comum, pois é isso que acontece quando se fazem leis deste tipo nos poucos países europeus que as têm, e se permite que sejam mortas milhares de pessoas por ano – uma eutanásia a cada hora e meia na Holanda em 2015 –, pessoas com doença mental, pessoas que não pediram para morrer, pessoas sem situações de terminalidade, pessoas cansadas de viver.

Defendemos uma sociedade moderna, que tem na protecção da vida o alicerce dos Direitos Humanos, uma sociedade que não descarta os mais vulneráveis e lhes amplia horizontes. Para nós, o problema do sofrimento em fim de vida trata-se cuidando e não eliminando aquele que sofre.





domingo, 19 de fevereiro de 2017

Parlamento europeu: «direitos» para robôs, mordaça para defensores da família



Alejandro Ezcurra, IPCO, 28 de Janeiro de 2017

Entre a loucura e a perseguição

Os povos da Europa estão a mostrar uma recusa cada vez maior a este mastodonte burocrático, totalitário e asfixiante chamado União Europeia (UE). O voto popular a favor do «Brexit» foi apenas uma amostra do crescente fosso que separa a UE das reais aspirações dos cidadãos dos seus países-membros.

Um dos organismos da UE mais contestados é o Parlamento Europeu, incumbido de legislar sobre normas comuns dos países da União Europeia. A principal causa de tal recusa são as imposições ideológicas deste organismo contra a família e contra a própria natureza humana.

Da alucinação à realidade

Não creia o leitor que exageramos: a Comissão de Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu acaba de aprovar um rascunho do relatório que propõe conceder personalidade jurídica aos robôs autónomos «mais sofisticados», atribuindo-lhes «o status de pessoas electrónicas (sic!) com direitos e obrigações específicos, inclusive de reparar qualquer dano que possam causar».

Segundo a autora do relatório, a deputada luxemburguesa Mady Delvaux, a humanidade está a entrar no umbral de uma «nova revolução industrial», na qual os robôs também poderiam ficar sujeitos a certas «obrigações», inspiradas aparentemente nas chamadas «Três Leis da Robótica», enunciadas pelo publicitado autor de ciência-ficção Isaac Asimov no seu conto Runaround (Círculo vicioso), de 1941.

Ora, esta ficção visionária parece estar a caminho de se tornar uma absurda realidade legal.

Mas, o que sucederia se um robô «saísse do manual» e gerasse situações de perigo? A relatora já tem a resposta: inserir previamente em todos os robôs um «interruptor mortal» através do qual possam ser desactivados caso funcionem «fora das leis estabelecidas».


Dependendo do seu nível de sofisticação, estabelecer-se-iam diversos «níveis de imputabilidade» para os robôs infractores: a «responsabilidade pessoal» (sic) de cada um aumentaria proporcionalmente à sua maior autonomia.

Ou seja, teríamos uma espécie de «código penal» alternado para robôs, com diferentes sanções que vão da «pena de morte» a castigos menores.

Felizmente, para alívio da nossa atormentada espécie humana, no meio de tanta loucura Delvaux faz uma ressalva: «Um robô não é um ser humano e nunca será humano. […] Pode mostrar empatia, mas não pode sentir empatia» (pelo menos não se deu conta…). Prescreve, ademais, que nenhum robô deverá parecer «emocionalmente dependente», nem manifestamente humano, nem aparentar «que ama ou que está triste»[1].

Para a deputada Delvaux, a interacção diária de homens com o que ela chama de «entes inteligentes não humanos» ou Inteligência Artificial, suscita problemas derivados da complexidade destes últimos, inclusive a «clara possibilidade» de que, apesar de serem produtos da nossa própria criação, nos superem «tanto mentalmente (sic) quanto fisicamente»; por outras palavras, que o feitiço robótico se volte contra o feiticeiro humano…[2].

Perseguição à vista?

Este não é o único disparate que se cozinha no Parlamento Europeu. A eurodeputada ecologista Heidi Hautala encomendou no ano passado à lobista pró-aborto polonesa Elena Zacharenkel um relatório contra as instituições e personalidades que se opõem aos supostos «direitos sexuais e reprodutivos» e à «igualdade de género», bandeiras da actual revolução cultural. O texto foi apresentado no dia 12 do corrente mês de Janeiro.

Manifestação da Federação Pró-Europa Cristã
diante do Parlamento do Luxemburgo, no dia em que se votou
a legalização do aborto neste país.
Segundo o portal espanhol Actual, «na lista negra desta peculiar caça às bruxas está em primeiro lugar o Vaticano (?), e depois 500 movimentos pró-vida e pró-família de 30 países da Europa» — entre os quais as agrupações Mum, Dad and KidsOne of usCitizenGo, etc. –, ou personalidades como Sophia Kuby, Gregor Puppinck, os espanhóis Jaime Mayor Oreja e Ignacio Arsuaga, entre outros.


E, evidentemente, neste libelo acusatório não poderia faltar a TFP: a relação destaca a Federação Pró-Europa Cristã (FPEC) [foto acima], com sede em Bruxelas, que aglutina TFPs e associações afins de 17 países europeus para acções conjuntas em defesa dos valores familiares. Menciona também que a FPEC é dirigida pelo Duque Paul von Oldenburg [Foto abaixo] e surgiu do «movimento ultraconservador […] Tradição, Família, Propriedade». E acusa os membros das TFPs de promoverem «uma cruzada no século XXI para levar a cabo uma revolução cristã»[3], quando deveria dizer uma Contra-Revolução.

Estas menções à FPEC e às TFPs, vindo de onde vieram — dos antros da Ideologia de Género — são sumamente honrosas para nós e para as demais entidades da lista, pois o seu reconhecimento da eficácia da nossa luta em defesa da civilização cristã equivale a uma condecoração implícita.

Duque Paul von Oldenburg, director da Federação pró-Europa Cristã
e da TFP alemã, é um dos «inimigos» da revolução cultural denunciados
numa acusação do Parlamento Europeu.
O libelo reconhece, por exemplo, que em certas ocasiões as entidades visadas pelo seu alarme «são capazes de activar dezenas de milhares de aderentes» em mobilizações que «conseguiram influenciar o desenvolvimento de políticas da UE».

Por isso, convoca a «opor-se à proliferação dos movimentos anti-choice», assinalando que para isso «é crucial que os progressistas [leia-se: as esquerdas alinhadas com a revolução sexual] apresentem soluções concretas para estes desafios […] a fim de rebaterem eficazmente a visão promovida pelas forças conservadoras».[4]

Quais seriam estas soluções concretas? Anteriormente, a este tipo de denúncias seguia-se um estrondo publicitário e uma encarniçada perseguição contra os denunciados. Mas, hoje, o Parlamento Europeu, a própria UE e as esquerdas em geral estão de tal modo desacreditadas perante o público, que provavelmente o libelo ficará apenas como mais um estalido de ódio contra a Igreja católica e a civilização cristã, sonoro, mas impotente.

E, enquanto isto, dentro e fora da Europa, um número cada vez maior de pessoas perguntam: «Para que serve o Parlamento Europeu?».

____________

Notas:






(*) Matéria traduzida do original em castelhano por Hélio Dias Viana.






Jean-Claude Juncker duvida da União Europeia



Hubert Cordat, Reinformation.tv, 13 de février 2017

Le président de la Commission européenne, Jean-Claude Juncker, a souligné samedi dans un entretien qui n’a été diffusé que dimanche sur les ondes de la radio allemande Deutschlandfunk, ses craintes sur l’avenir de l’Union européenne, notamment depuis le Brexit. Ce doute est sans aucun doute très fort, puisqu’il a annoncé par la même occasion qu’il ne briguerait pas un deuxième mandat à la tête de la Commission en 2019.

Evoquant son arrivée à la tête de la Commission européenne en 2014, Jean-Claude Juncker affirme en effet que «ce fut une belle campagne électorale», mais il n’y en aura «pas de seconde, car je ne me porterai pas candidat une seconde fois».

Autrement dit, après avoir longtemps présidé l’Eurogroupe, et avoir remporté la campagne pour la présidence de la Commission, l’ancien premier ministre luxembourgeois entend jeter l’éponge, alors même que son actuel mandat de cinq ans est renouvelable une fois.

Les doutes de Jean-Claude Juncker

La raison en est sans doute le sombre portrait qu’il dresse de l’avenir de l’Union européenne. S’interrogeant sur son unité, sa cohésion et sa cohérence, il exprime, alors même qu’il affirme en voir l’urgence, «quelques doutes justifiés que cela arrive vraiment».

En effet, «Les Hongrois et les Polonais veulent-ils exactement la même chose que les Allemands ou les Français? J’ai de grands doutes».

Mais son inquiétude va plus loin. Jean-Claude Juncker estime en effet que la Grande-Bretagne n’aura guère de difficultés pour diviser l’Union européenne: «Les 27 autres pays de l’Union européenne ne le savent pas encore, mais les Britanniques savent parfaitement comme ils doivent s’y prendre, affirme Jean-Claude Juncker. Il peuvent promettre une chose à un pays A, une autre chose à un pays B et encore une autre à un pays C dans le but qu’il n’y ait pas de front uni européen.»

Mais le président de la Commission européenne admet également un échec personnel puisqu’il avait pour ambition, au début de son mandat, de faire remonter la confiance des opinions publiques dans le projet européen. «Et à présent, conclut-il sur ce point, me voilà occupé, plusieurs heures par jour, à planifier la sortie d’un Etat membre. Ce n’est pas un travail d’avenir…»

Le sombre avenir de l’Union européenne

Dans le même temps, il continue d’essayer de freiner des quatre fers, en affirmant: «Nous ne devrions pas autoriser les Britanniques à faire comme s’ils pouvaient déjà conclure seuls des traités commerciaux avec d’autres parties car ils n’en ont pas le droit», et cela, «tant que la Grande-Bretagne est membre de l’Union européenne», la politique commerciale étant «du ressort de l’Union européenne».

On le voit très nettement. Alors que la crise de la conscience européenne vient à l’évidence d’une confiscation de la politique par Bruxelles, alors que les peuples des Etats-membres réclament chaque jour davantage de subsidiarité, les caciques européens, tels les singes de la sagesse, continuent de se voiler la face, poursuivant le chemin désastreux sur lequel ils se sont engagés. Et nous avec eux…

En définitive, si Jean-Claude Juncker ne veut pas se représenter à sa propre succession, c’est sans doute parce qu’il sait que sa Commission, qui devait être celle de la dernière chance, a raté son but!





sábado, 18 de fevereiro de 2017

A quem beneficia o Olimpo republicano português?



António Justo

AEROPORTO MÁRIO SOARES

– IMPOSIÇÃO DE MAIS UM MODELO CONTROVERSO
À CONSCIÊNCIA PORTUGUESA?

Não queremos ver Portugal limitado a uma casa assombrada
dos espíritos políticos

Na República, a virtude não parece mercadoria que se venda nem que se coloque em lugar nobre! Seria embaraçoso colocá-la nos altares da Nação porque então a corrupção comprometida passaria a não ter atracção nem cobertura. A República que era contra os ídolos da Monarquia, sem pôr a mão na consciência, substitui-os pelos ídolos da República. Aquela República dos homens do avental aproveita-se para entronizar, no lugar dos deuses, os seus comparsas, de maneira qualificada mas discreta. Um Portugal desaportuguesado, de cima, continua a implementar modelos controversos para assim eternizarem um país de espírito faccioso e divisionista. Cultiva-se um ideário de consciência política partidária individualista que se quer confundível com a consciência comunitária portuguesa (que consequentemente degenera num patriotismo empolado). Em vez de se auto-incensar, a política tem como tarefa fomentar também modelos da cultura e da integração no imaginário português. Na carência de um ideário cultural nacional, fomenta-se uma sociedade de tipo casa assombrada ocupada por espíritos políticos. Precisamos de menos ruído político para nos intervalos do seu silêncio termos espaço público para a cultura. Só assim poderemos dar ao povo a oportunidade de se tornar rei de si mesmo e desviar-se do paternalismo que leva à subjugação.

Proposta precipitada de Marcelo Rebelo de Sousa

O senhor Presidente da República precipitou-se ao sugerir (15.01.) que o possível novo aeroporto de Lisboa, a ser construído no Montijo, se chame Aeroporto Mário Soares. Ainda o ovo não saiu do ânus da galinha e já as bochechas políticas têm um nome redondo para lhe dar. Com estas e outras o senhor presidente revela-se como um oportuno continuador de um regime de comparsas e amigos preocupado em colocar os seus «santos» no Olimpo de Portugal para o povinho venerar! Como povo habituado a ser colocado à procura de gambozinos não nota sequer que o senhor presidente, à boa maneira do centralismo francês aportuguesado, se adianta com a proposta e assim prescinde da formação de opinião a partir do povo e indirectamente pressupõe a questão da decisão da construção daquele aeroporto, como facto consumado. Deste modo vem dar continuidade à realidade macrocefálica de uma capital sem corpo e também não tem em conta a falha sísmica do Vale do Tejo.

O rescrito da Nação terá de deixar de ser delineado só pelos caracteres políticos do Estado. Portugal precisa de uma outra narrativa, uma narrativa com um fio condutor não do poder mas do espírito cultural, para poder tornar-se num impulso criativo para uma geração de novos portugueses e novos políticos. Não precisamos só de homens, que de regime em regime se afirmem pela oposição ou pela afirmação, precisamos de personalidades da cultura com capacidade de atrair uns e outros. Mário Soares é uma grande personalidade dentro do partido socialista português mas como personalidade nacional provocou grandes bens e grandes males.

O futuro de um povo depende do cuidado dos seus mitos

O pressuposto do futuro está na memória. É natural que um país precise de pessoas de referência que permaneçam no ideário popular para, de forma duradoura, configurarem o sentimento de identidade nação-povo. O que não é natural é que devido ao provincialismo antiquado da classe política refugiada em Lisboa, os políticos continuem a querer impor os seus corifeus como personalidades exemplares para o País.

A República portuguesa seria bem aconselhada se procurasse fora da política as suas personalidades de referência. Portugal tem tido, na sua história, personalidades de alta relevância na cultura, na literatura, nas artes e nas ciências; este é o campo propício onde se encontram personalidades de referência nacional e internacional, propícias para a sustentabilidade na formação da alma portuguesa. A República tem produzido personalidades demasiado partidárias e controversas para poderem servir de exemplo e funcionarem como factores de integração do povo português. Mário Soares teve o mérito, de, com outros, impedir a implantação da ditadura comunista e neste sentido se provar como democrata mas nunca poderá ser um homem modelo consensual, sendo, como tal, impróprio como factor de identidade nacional. Não se contesta a sua imagem como ícone partidária na paisagem democrática.

Enquanto, numa democracia partidária, a política e a notícia escandalosa continuarem a dominar o espaço da arena pública, a cultura do país está condenada a definhar!

A quem aproveita isto?

Em política há sempre uma pergunta que deveria ser colocada sempre como prova dos nove do que se faz ou pretende fazer: quem se beneficia com isto?

Não seria de benefício para Portugal querer construir um regime político sobre as cinzas do Estado Novo sem ter consciência de que para se construir um Estado moderno seria também necessária a coragem de se reduzir a cinzas os malefícios crónicos da República e que infelizmente Soares também incorpora e representa. Um povo é um rio que flui ininterruptamente não podendo ser interrompido nem transformado em barragens sucessivas desta ou daquela ideologia!

De República vermelha para República arco-íris

Algo não é racional na lógica republicana e na política que segue de colocar os seus ídolos no Olimpo republicano! Por um lado muda o nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril e por outro destrona o Salazar como se ele não fizesse parte da República. Ou será que querem fazer do Olimpo republicano apenas um lugar para a esquerda e para maçónicos? Num Portugal inteiro, o Olimpo republicano precisa de todos os «santos» para venerar! (Já que falamos em «santos»; não haverá aí uma Maria da Fonte que, para desenfastiar, possa figurar como santa no Horizonte republicano? Tem talvez a desvantagem de cheirar a povo num Olimpo iluminado que para continuar a ser coerente consigo mesmo terá de ser masculino!)

Já numa acção operada no nevoeiro tinham trocado o nome de Aeroporto da Portela para Aeroporto Humberto Delgado. Gago Coutinho e Sacadura Cabral ficaram a ver navios! O cultivo da memória da História de Portugal tornar-se-ia embaraçosa para os nossos boys!

Em tempos em que governa a instabilidade emocional, penso que seria um acto de racionalidade, optar-se pela denominação de AEROPORTO POVO DE PORTUGAL, num país que se diz republicano, democrático e não gostar de santos!

O Olimpo português é um lugar sem exigências e como tal não faz sombra à corrupção política. O problema surge para os terráqueos que vivem num Estado em bancarrota e a ter de festejar os seus responsáveis como grandes estrelas no seu horizonte!

Os tempos políticos que correm, dado serem propícios a gerar muitos políticos do oportuno, deveriam deixar os políticos viver à vontade, mas exigir deles o critério de não terem o descaramento de desonrar o povo obrigando-o a ajoelhar perante os seus nomes. Porque não dar o nome das localidades aos aeroportos? Pouco a pouco se vai tendo a certeza que nos encontramos numa democracia sem baronesas mas que tropeça nos barões.

A «Ponte Salazar» depois «Ponte 25 de Abril» comemorou o seu 50.° aniversário

A Ponte Salazar, inaugurada a 6 de Agosto de 1966, passou há 42 anos a ser chamada Ponte 25 de Abril. Era na altura a quinta maior ponte suspensa do mundo e a maior fora dos EUA.

Uma República envergonhada de si mesma rouba ao passado o que não lhe pertence na esperança de viver do princípio, que o povo é massa de manobra e tudo o que vem à rede é peixe e o que não mata engorda.

Em nome da liberdade, os abrilistas apropriaram-se do nome da ponte. Agora, nos meios sociais, parte da esquerda sisuda e arrependida reconhece que fez mal e por isso, surgiu entre ela a ideia de lhe mudar o nome para Ponte da Liberdade, como se a liberdade tivesse dono e em Lisboa já não houvesse uma Avenida da Liberdade anterior à revolução!

O Povo português tem sido enganado ao ver ser atribuída a liberdade em Portugal à revolução de Abril. O movimento da liberdade já há muito se encontrava no coração e nas actividades de muitos portugueses de esquerda e de direita que actuavam não só nos ambientes comunistas.

É ilegítimo querer fazer passar a ideia que a liberdade e a democracia eram propriedade de forças radicais da esquerda.

Os senhores abrilistas até da razão se apoderaram ao assenhorarem-se da revolução cultural em via também em torno do Bispo do Porto, Dom António e da camada jovem que vivia o espírito do movimento 68 e anteriormente pelas grandes discussões de preparações para o Vaticano II no meio católico. Doutro modo teriam de consequentemente assumir também as barbaridades e traições executadas por uma esquerda radical anterior e posterior ao 25 de Abril.

Um dia a Ponte 25 de Abril voltará a ser chamada Ponte Salazar, não por razões de revanchismo ou de saudade de autoritarismos mas por razões de memória e de justiça num povo que precisa de pontos salientes para melhor se orientar.

Vive-se bem da ideologia servida ao povo como ópio tranquilizante. O problema é crónico mas pode ajudar a lucidez de o reconhecer.




Quebec: A crise do Ocidente


Giulio Meotti, Gatestone, 16 de Fevereiro de 2017

  • Quebec, assim como todo o Ocidente está enfrentando uma crise existencial, religiosa e demográfica.
  • A escalada de óbitos em Quebec está inequivocamente ligada aos apelos para o aumento da imigração. O primeiro-ministro do Canadá Justin Trudeau, que pôs um fim à campanha militar contra o Estado islâmico, simplesmente convidou migrantes muçulmanos a virem para o seu país.
  • A resistência ao dramático colapso do cristianismo no Quebec não requer necessariamente um novo abraço ao velho catolicismo, mas com certeza necessita de uma redescoberta racional sobre o que a democracia ocidental deveria ser. O que inclui a apreciação da identidade ocidental e dos valores judaico-cristãos – tudo o que o governo de Trudeau e grande parte da Europa, ao que tudo indica, se recusam a aceitar.
Bem-vindo ao Quebec, com o seu sabor de uma antiga província francesa, com as suas belas paisagens, onde as ruas levam o nome de santos católicos e onde um atirador acaba de assassinar seis pessoas numa mesquita.

A violência pode ser a consequência de convulsões sociais, como no massacre na ilha de Utoya na Noruega em 2011, um país que se orgulhava ser ultrasecularizado, parte da «boa sociedade» global. O Quebec também, assim como todo o Ocidente está enfrentando uma crise existencial, religiosa e demográfica.

George Weigel escreveu recentemente um artigo na revista norte-americana Firts Things chamando Quebec de «bairro livre do catolicismo». «Não existe um lugar mais árido em termos religiosos», destacando: «provavelmente não há um lugar mais árido, em termos religiosos no planeta entre o Polo Norte e a Tierra del Fuego».

Sandro Magister, um dos mais proeminentes jornalistas de Itália em assuntos católicos salientou: «enquanto se conversa em Roma, o Quebec já está perdido».

As edificações católicas no Quebec estão vazias, o clero está a envelhecer. Hoje em dia no interior da Igreja de Saint-Jude em Montreal os instrutores de fitness tomaram o lugar dos padres católicos. O Théatre Paradoxe em Montreal agora encontra-se onde estava anteriormente a igreja de Notre-Dame-du-Perpétuel-Secours antes de fechar. A antiga nave cristã agora é usada para concertos e conferências, aos domingos os hinos cristãos foram substituídos por shows de discoteca.

A Igreja de Saint-Jude em Montreal virou o «spa Saint-Jude» dos «adoradores do bem-estar»,
totalmente equipado com personal trainers, festas badaladas com coquetéis e bancos estilosos
em forma de crucifixo nos vestiários (Imagem: captura de tela de vídeo da Montreal.TV).

Diocese de Montreal vendeu 50 igrejas e outros edifícios religiosos nos últimos 15 anos. Em 24 de Maio de 2015 foi celebrada a última missa na famosa Igreja de São João Baptista, dedicada ao padroeiro dos franco-canadenses. O Bispo Auxiliar do Quebec Gaetan Proulx disse que a «metade das igrejas de Quebec» irão fechar nos próximos dez anos.

No filme «The Barbarian Invasions (As Invasões dos Bárbaros)» de Denys Arcand, «há uma cena em que um padre católico analisa peças de arte religiosa sem muito valor, que abarrotam a sua diocese, para mostrar a sua irrelevância. O velho padre diz:

«O Quebec costumava ser tão católico quanto a Espanha ou a Irlanda, todos eram religiosos. Num determinado momento nos idos do ano de 1966, a bem da verdade, as igrejas de repente, em questão de meses, ficaram vazias, Um fenómeno estranho que ninguém jamais foi capaz de explicar».

«O homem sem história, sem cultura, sem país, sem família e sem civilização não é livre:  está nu e condenado ao desespero», torna saliente o filósofo de Quebec Mathieu Bock-Côté.

O estado em que se encontra hoje o catolicismo no Quebec é realmente desesperador. Em 1966 havia 8 800 padres, hoje há 2 600, cuja maioria é idosa, muitos já residem em lares para idosos. Em 1945 a missa semanal contava com a participação de 90% da população católica, hoje são 4%. Centenas de comunidades católicas simplesmente desapareceram.

O Conselho do Quebec do Património Religioso referiu que em 2014 um número recorde de 72 igrejas foram fechadas. A situação é ainda pior na Arquidiocese de Montreal. Das 257 paróquias em 1966, havia 250 em 2000 e em 2013 apenas 169 paróquias. O cristianismo parecia estar em risco de extinção. O Arcebispo de Montreal Christian Lépine impôs uma moratória sobre a venda de igrejas.

À medida que as autoridades do Quebec impunham um secularismo agressivo como ferramenta para promover o multiculturalismo, o Quebec testemunhava um aumento dramático no número de jovens muçulmanos que se juntaram ao Estado Islâmico. − Foram cometidos ataques terroristas por convertidos ao Islão – pessoas que rejeitaram o relativismo canadense para abraçar o fanatismo islamista. «O fundamentalismo secularista do Quebec chegou ao extremo de impor a todas as escolas públicas e privadas – a primeira instância dessa natureza em todo o mundo – um curso obrigatório sobre ética e cultura religiosa» salientou Sandro Magister.

Um relatório académico concluiu:

«Dados do censo canadense mostram que o Islão é a religião que mais cresce no país e que embora a maior parte do crescimento da população muçulmana esteja relacionada com as taxas de natalidade dos muçulmanos e migração, desde 2001 a população muçulmana também aumentou em consequência das conversões religiosas dos canadenses não muçulmanos».

O declínio demográfico do Quebec também é revelador. A taxa de natalidade despencou de uma média de quatro filhos por casal para apenas 1,6 – bem abaixo do que os demógrafos chamam de «taxa de substituição populacional». O Quebec é um caso singular em comparação aos países desenvolvidos no tocante à intensidade e velocidade com que as taxas de fertilidade total despencaram.

A escalada de óbitos no Quebec está inequivocamente ligada aos apelos para o aumento da imigração. O primeiro-ministro do Canadá Justin Trudeau, que pôs um fim à campanha militar contra o Estado islâmico, simplesmente convidou os migrantes muçulmanos a virem para o seu país.

Segundo os demógrafos, somente a província do Quebec precisa de 70 000 a 80 000 imigrantes por ano para compensar a sua baixa taxa de natalidade. Mas o que acontece quando um dos mais famosos territórios católicos do mundo passa por uma revolução desta natureza cultural e religiosa, para compensar a queda demográfica?

A resistência ao dramático colapso do Quebec não requer necessariamente um novo abraço ao velho catolicismo, mas com certeza necessita de uma redescoberta racional sobre o que a democracia ocidental deveria ser. O que também inclui a apreciação da identidade ocidental e dos valores judaico-cristãos – tudo o que o governo de Trudeau e grande parte da Europa, ao que tudo indica, se recusam a aceitar. Metade dos ministros de Trudeau não foram empossados com um juramento religioso. Recusaram-se até a dizer «com a ajuda de Deus».

O lema de Quebec é: «je me souviens»: Eu me lembro. Mas do que, exactamente? No «bairro livre do catolicismo» o vencedor será o Islão?

Giulio Meotti, Editor Cultural do diário Il Foglio, é jornalista e escritor italiano.





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Para Prémio Nobel o «aquecimento global é uma nova religião»


Ivar Giaever, Prémio Nobel de Física 1973.

Luis Dufaur, IPCO, 15 de Fevereiro de 2017

Ivar Giaever, Prémio Nobel de Física 1973 renunciou à famosa American Physical Society (APS) em 13 de Setembro de 2011 como forma de condenar a posição oficial da associação em favor do «aquecimento global».

Giaever é professor emérito do Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy, Nova York, e da Universidade de Oslo.

Em 2007, a APS adoptou uma declaração oficial segundo a qual as actividades humanas estão a mudar o clima da Terra.

«As evidências são incontestáveis: O aquecimento global está ocorrendo», afirmava o documento repelido pelo Prémio Nobel.

«Se não forem empreendidas acções mitigadoras provavelmente acontecerão rupturas significativas nos sistemas físicos e ecológicos da Terra, nos sistemas sociais, atingindo a segurança e a saúde humana. Precisamos reduzir as emissões de gases de efeito de estufa a partir de agora», martelava o documento.

Giaever enviou nessa altura um e-mail para Kate Kirby, chefe da APS, explicando que «ele não podia cooperar com essa declaração» quando a temperatura global continua «surpreendentemente estável».

Na APS, explicou o cientista, pode-se discutir todos os temas científicos, menos um que é tratado como tabu intocável: «o aquecimento global deve ser tratado como evidência indiscutível»?

«A alegação de que a temperatura da Terra passou de 288,0 para 288,8 graus Kelvin em cerca de 150 anos, se for verdade significa que a temperatura tem sido surpreendentemente estável, e a saúde humana e a felicidade melhoraram indiscutivelmente neste período de ‘aquecimento’», acrescentou o Prémio Nobel.

«Aquecimento global», guerra ao desflorestamento, etc.:
dogmas de uma nova religião

Para o Prémio Nobel, «o aquecimento global tornou-se uma nova religião»«Ouvimos muitas advertências semelhantes sobre a chuva ácida, há 30 anos e o buraco de ozono há 10 anos ou o desflorestamento», defende ele apontando profecias catastrofistas que não se verificaram.

«O aquecimento global tornou-se uma nova religião. Nós frequentemente ouvimos falar do número de cientistas que o apoiam. Mas o número não é importante:… Só importa saber se os cientistas estão correctos. E, realmente nós não sabemos no que é que consiste o efeito real da actividade humana sobre a temperatura global», acrescentou.

Giaever é um dos cientistas mais proeminentes citados no Relatório histórico da Comissão do Meio Ambiente e Obras Públicas do Senado dos EUA.

Figura entre os 400 «cientistas dissidentes» que denunciaram em manifesto o mito do «aquecimento global» e que aumentaram para 700.

Giaever também foi um dos mais de 100 signatários da carta de 30 de Março de 2009 ao presidente Barack Obama, criticando a sua postura sobre o aquecimento global.

É de se desejar que o novo presidente americano Donald Trump que mostra sensibilidade para posições afastadas do utopismo «verde» reconheça agora os méritos de cientistas como Giaever.

Figura de destaque numa legião de cientistas objectivos que vêm sendo menosprezados e até punidos pelo radicalismo ambientalista instalado na administração pública americana.





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Eutanásia e o «mito da autonomia»



Diogo Costa Gonçalves, Observador, 11 de Fevereiro de 2017

A solidariedade é sentida como o primeiro e mais expressivo dever de humanidade. Por isso se rebela a inteligência e o coração contra os muros que se erguem e contra os mortos que ninguém chora.

Uma só coisa é certa no debate da eutanásia: está em causa uma fronteira civilizacional. Ultrapassá-la ou defendê-la, depende da perspectiva.

A questão de fundo é inelutável: a centralidade da autonomia, como valor antropológico e jurídico.

É em nome da autonomia que se reclama o direito a decidir quando e em que circunstâncias podemos pôr termo à própria vida; é em nome da autonomia que se exige a assistência médica nesse momento singular; é em nome da autonomia que se postula uma leitura dignificante, altruísta, humanizadora do que até há bem poucos anos era sinal de barbárie… E é também em nome da autonomia que se condena qualquer visão diferente, catalogada como intolerante e sem direito de cidadania, porque, justamente, parece ameaçar a auto-determinação do sujeito.

Sucede, porém, que a autonomia é um mito: um novo dogma moderno com pouca sustentação na realidade. Não, não somos autónomos! Não o é o bebé recém-nascido, nem o idoso, nem o doente terminal. Nem sequer o adulto na plena posse das suas faculdades. Talvez gostássemos de o ser. Talvez até estivéssemos dispostos a queimar incenso no altar da velha Aytomatia grega… mas não somos autónomos!

Pelo contrário: o que é próprio da nossa experiência humana é a contingência, a fragilidade, a necessidade e a dependência face ao outro. Não há segundo da nossa existência em que não estejamos nas mãos de alguém.

Essa vulnerabilidade genética que todos experimentamos, não é aviltante. Pelo contrário: está associada ao que de mais belo e digno tem a nossa condição humana. Somos tanto mais humanos quanto mais somos dos outros e para os outros.

No mundo das ideologias, é possível conceber muitos sujeitos autónomos, mas na realidade da vida – da nossa vida concreta de todos os dias – é impossível encontrar uma única pessoa que o seja realmente.

Por isso, a solidariedade é sentida como um dever: o primeiro e mais expressivo dever de humanidade. Por isso se rebela a inteligência e o coração contra os muros que se erguem e contra os mortos que ninguém chora.

Ora, é justamente aqui que reside a falácia da eutanásia.

Ao reclamar uma plena autonomia para o sujeito, o que se está a fazer é a negar a solidariedade como um dever irrenunciável. Quando aquele que depende de mim pode morrer, que obrigação terei eu de lhe assegurar a vida?

Se a dependência é vista como um fardo, como uma indignidade, o direito a uma morte rápida e indolor transforma-se facilmente num dever de morrer dignamente, de não ser pesado, de não onerar o outro com a minha existência.

Não tenhamos dúvidas: é isto o que está em debate na eutanásia. O sofrimento do outro – por quem, infelizmente, poucos realmente se interessam – é apenas um pretexto emocional para a discussão… tudo mais (menos cuidados paliativos, mais consentimento informado, etc.) são minudências de uma discussão que só não vê quem não quer.