segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma experiência do Terceiro Mundo


Alberto Gonçalves, Observador, 8 de Julho de 2017

É gente literalmente abjecta. Perante a tragédia, decretam o caso resolvido. Perante o desleixo, lembram desleixos maiores. Perante as dúvidas, confessam sentimentos. Perante as câmaras, dão abraços.

Em Maio passado, gastei uma quantidade inusitada de tempo a fazer o que nunca faço: reler as minhas crónicas, no caso as que escrevi sobre o actual governo. O propósito era nobre, e prendia-se com a publicação de um livro saído esta semana (pausa publicitária: que mil familiares do dr. César lhe desabem na cabeça se ainda não adquiriu tão magnífica obra). A experiência foi traumática, para dizer o mínimo. Acompanhar a chamada «actualidade», de modo a garantir a coluna no Observador, é convívio mais do que suficiente com os bandos que tomaram conta disto. Não é clinicamente aconselhável reforçar a confraternização.

Os textos em causa, muito menos por mérito do autor do que pelo evidente e portentoso demérito das criaturas que mandam em nós, são premonitórios. Na medida em que as premonições não primam pelo optimismo, são também deprimentes. Desde o primeiro momento, a loucura intrínseca à aliança das «esquerdas», legitimada por um Presidente que o artigo 328.º do Código Penal me impede de comentar, mostrou ao que vinha e para que servia. O impressionante não é que o desastre se tenha confirmado com estrondo, mas que durante ano e meio o desastre se confundisse, para uma notável percentagem da população, com um relativo sucesso. A sucessão de glórias circenses, da bola às cantigas, passando pelo Santo Padre ou pelo Santo Guterres, não explica tudo. A submissão de boa parte dos «media» explica um bocadinho. As benesses do turismo explicam outro bocadinho. A apatia do bom povo e o júbilo das clientelas talvez expliquem o resto.

Certo é que, em poucas semanas, alguma coisa mudou. Não mudaram o circo, os «media», o povo ou as clientelas. Sucedeu apenas que, de repente ou nem por isso, a realidade tornou-se impossível de negar. E a invencível nação que, de acordo com a propaganda, maravilhava a Terra acordou destapada. E feia. Foram necessários dezenas de cadáveres carbonizados e um picaresco (e aterrador) roubo de armamento ao exército para expor, à revelia da maquilhagem e do «spin» e das «boas notícias», a natureza da gente que ocupa o poder.

Não tem sido um espectáculo agradável, excepto para apreciadores da incompetência, do descaramento e da radical ausência de dignidade. É, em suma, uma gente literalmente abjecta. Perante a tragédia, eles decretam o caso resolvido. Perante o desleixo, lembram desleixos maiores. Perante as dúvidas, confessam sentimentos. Perante as câmaras, dão abraços. Perante a culpa, acusam eucaliptos e furriéis. Perante o caos, pedem avaliações de popularidade. Perante a obrigação, partem de férias para Ibiza, a subjugar espanhóis com a barriga e um par de cuecas.

A propósito de Espanha, é revelador que, apesar dos divertidos esforços dos «jornalistas» de cá para os calar, sejam sobretudo os jornais de lá a contar-nos o que o «estrangeiro» vê quando olha para aqui. Vê uma anedota perigosa, um manicómio em auto-gestão, uma experiência do Terceiro Mundo às portas da Europa. E, naturalmente, assusta-se.

O susto não é descabido. Descabido é o rumo que, com a sensatez habitual, o «debate» indígena ameaça seguir. A oposição, se a palavra se aplica, andou uma semana a lamentar o colapso do Estado e a reclamar a demissão dos ministros da Administração Interna e da Defesa e o regresso do dr. Costa. Para quê? Não imagino. A substituição de duas insignificâncias por duas insignificâncias iguaizinhas não alteraria nada. O prolongamento das férias do dr. Costa por 20 ou 30 anos alteraria imenso. Quanto ao Estado em frangalhos, em teoria só um socialista, assumido ou dissimulado, se maçaria com o tema – na prática, o aborrecido é a devastação principiar pelos únicos pedaços que, se calhar, convinha manter.

Entre o chinfrim, sobra um facto: Portugal é governado por uma coligação de leninistas com sentido de oportunidade e de oportunistas com nostalgias totalitárias. O que nos está a acontecer é o percurso fatal em qualquer arranjo do género. Começa-se em euforia, avança-se para a estupefacção, saltita-se para a raiva e termina-se em desgraça, porque semelhante malformação não poderia terminar de maneira diferente. O simbolismo da recente manifestação de apoio ao sr. Maduro, em Lisboa, não é desprezível.

No mesmo dia em que os funcionários da ditadura atacaram com marretadas pedagógicas o parlamento venezuelano, o Conselho Português para a Paz e Cooperação, uma excrescência do PCP, desfilou a regozijar-se com o sangue das vítimas. Na homenagem, participaram, cito, «representantes da câmara municipal de Lisboa» e, quiçá em celebração de Tancos, a Banda do Exército. Segundo o «Diário de Notícias», o belo evento «foi perturbado por um incidente com um cartaz». O cartaz rezava «Venezuela Livre», e o portador acabou devidamente assaltado em prol da paz e, claro, da cooperação.

Portugal não está nas mãos de irresponsáveis, tradição a que aliás nos habituáramos: está nas mãos de criminosos, por acção ou omissão. São eles que, a cada calamidade, juram que podia ter corrido pior. E, no que depender deles, há-de correr.





sábado, 8 de julho de 2017

Agenda Transgénero vs. Ciência


Rick Fitzgibbons, Actualidade Religiosa, 5 de Julho de 2017

O Gabinete para os Direitos Civis do Departamento de Educação dos Estados Unidos emitiu recentemente uma série de instruções que indicam que se uma escola não utilizar os «nomes e pronomes escolhidos» pelos alunos transgénero, incorre em assédio.

De acordo com esta instrução da Administração Trump, o assédio inclui:

«Actos de agressão verbal, não-verbal ou físicos, intimidação ou hostilidade com base no sexo ou estereótipos sexuais, tal como a recusa em usar o nome ou o pronome escolhido por alunos transgénero quando a escola os usa para alunos não-transgénero ou quando a recusa é motivada por animosidade para com pessoas que não se encaixam em estereótipos sexuais».

Esta ameaça dirigida a professores, auxiliares e directores aumenta o risco de danos psicológicos e físicos/cirúrgicos para jovens e ignora completamente a literatura médica e psicológica sobre os factores de risco grave associados à criação de um ambiente favorável a que jovens se identifiquem com um sexo diferente daquele que é determinado biologicamente por cada célula do seu corpo.

A Administração Trump devia recuar destes artigos de fé politicamente correctos da administração anterior e examinar cuidadosamente, através do estabelecimento de um grupo de uma comissão presidencial, caso seja necessário, a ciência médica e psicológica associada com as tentativas de ajudar os jovens a lidar com atracções transexuais.

Os membros desta comissão poderiam incluir o Dr. Lawrence Mayer, professor de estatística e bio-estatística na Arizona State University, que se assume como um liberal e apoiante dos direitos LGBTQ e o Dr. Paul McHugh, que foi psiquiatra chefe da Universidade John Hopkins entre 1975 e 2001.

O artigo destes dois cientistas de 2016, «Sexuality and Gender: Findings from the Biological, Psychological and Social Sciences», é uma revisão exaustiva da literatura científica sobre identidade de género e orientação sexual, no qual examinaram mais de 500 artigos científicos. Ambos os médicos concordam que nem a orientação sexual nem a identidade de género é inata ou imutável (ou seja, ninguém nasce homossexual nem transgénero, ambos são fluidos). Mais, nem um nem outro encontrou qualquer prova de que se devia encorajar as crianças a identificarem-se como transgénero.

O Dr. Paul Hruz, um endocrinologista e professor associado de biologia celular e fisiologia na Washington University School of Medicine, de St. Louis, liderou um estudo de investigação chamado «Growing Pains: Problems With Puberty Suppression in Treating Gender Dysphoria» que levanta sérias questões sobre a forma como se tratam actualmente as crianças que padecem de disforia de género.

Esse relatório afirma que:

«Particularmente importante é o tratamento de crianças com disforia de género. Jovens com disforia de género constituem um grupo particularmente vulnerável e sofrem de altas taxas de depressão, automutilação e até suicídio. Acresce que as crianças não são ainda inteiramente capazes de compreender o que significa ser-se homem ou mulher. A maioria das crianças com problemas de identidade de género acabam eventualmente por aceitar o género associado ao seu sexo e deixam de se identificar com o sexo oposto.»

O artigo diz ainda que «à luz das muitas incertezas e do desconhecimento existente, seria apropriado descrever como experimental a utilização de tratamentos para bloquear a puberdade em crianças com disforia de género». Este novo tratamento tem sido oferecido a jovens sem as habituais salvaguardas que acompanham as terapias experimentais, tais como testes clínicos cuidadosamente controlados e estudos de seguimento a longo prazo.

O Dr. Kenneth Zucker, autor e psicólogo clínico, é outro académico importante e reconhecido internacionalmente no campo da disforia de género que seria um membro valioso de uma comissão presidencial sobre a forma mais apropriada de tratar estes jovens em termos médicos. Há trinta anos que ele trabalha neste campo e tem escrito uma quantidade enorme de artigos em revistas académicas sobre as origens e o tratamento dos muitos conflitos psicológicos em pais e jovens que dão aso a atracções transgénero. É co-autor do livro «Gender Identity Disorder in Children».

Os artigos do Dr. Zucker descrevem a forma como ele ajudou muitos jovens a aceitar a sua masculinidade ou feminidade biológica. O seu grupo só recomenda intervenções médicas quando a psicoterapia não funciona. Um recente documentário da BBC «Transgender Kids: Who Knows Best?» apresenta o seu trabalho e a controvérsia que actualmente rodeia as abordagens a jovens com atracções transexuais.

Os jovens e os seus pais têm direito ao consentimento informado sobre a atracção transexual, incluindo as opções de tratamento disponíveis, o facto de haver remissão na maioria dos casos e os riscos psicológicos e médicos graves associados ao uso experimental de hormonas e à cirurgia transexual.

Dois dos estudos mais importantes que devem ser discutidos dizem respeito aos efeitos da cirurgia transexual. Um estudo de 2015 determinou que num grupo de 180 adolescentes transexuais (106 mulher-para-homem e 74 homem-para-mulher) o risco de desordens psiquiátricas, incluindo depressão, ansiedade, ideias suicidas, tentativas de suicídio, automutilação sem intenções letais e tratamentos por saúde mental tanto em internato como em ambulatório era duas ou três vezes superior do que no grupo de controlo (Reisner, S.L., et al., 2015).

O maior estudo sobre transexuais pós-operatórios foi uma análise de mais de 300 pessoas na Suécia, ao longo dos últimos 30 anos. O estudo demonstra que depois de operações de mudança de sexo as pessoas incorrem em riscos de mortalidade, comportamento suicida e morbidade psiquiátrica consideravelmente superiores à população em geral (Dheine, C., et al. 2011).

Se o filho do Donald Trump lhe dissesse que se sentia uma mulher presa no corpo de um homem, o Presidente certamente quereria que ele tivesse conhecimento de todos os dados científicos associados a estas atracções emocionais e pensamentos confusos e ilusórios. E certamente não quereria que os professores e conselheiros seguissem as orientações do Departamento de Educação que promovem esses pensamentos ilusórios e sugerem tratá-lo por ela.

É urgente a criação de uma comissão presidencial que aborde esta pressão altamente politizada para se aceitar a agenda transgénero, para melhor proteger os jovens, as famílias e a cultura. Entretanto estas orientações draconianas que ignoram totalmente a ciência psicológica e colocam os jovens em risco deviam ser imediatamente revogadas.







sexta-feira, 7 de julho de 2017

«No tempo de Salazar, os ministros mandavam nos ministérios»




ENTREVISTA AO GENERAL GARCIA LEANDRO
SOBRE OS ACONTECIMENTOS NO EXÉRCITO.
(PEDRO RAINHO, OBSERVADOR)

(EXCERTOS)

O general Garcia Leandro diz, em entrevista ao Observador, que se o CEME avisou o ministro da falta de segurança, a culpa é do ministro. Se não o fez, a responsabilidade é dele.

general Garcial Leandro, 77 anos, foi vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, conselheiro de Portugal na NATO, comandante da missão das Nações Unidas no Sahara Ocidental. Uma das lições que aprendeu na sua longa carreira militar explica-se assim: a missão cumpre-se sempre, até se pisar a linha vermelha. No assalto ao armamento de guerra de Tancos, essa linha foi ultrapassada quando se encarou como «rotina» uma fragilidade na segurança que esteve dois anos para ser resolvida e que abriu a porta ao furto do armamento. Se tem um responsável em mente para o que se passou no parque de paióis de Tancos, Garcia Leandro não assume, mas diz: «Se o CEME alertou o ministro para as consequências graves que esta situação tinha, o responsável é claramente o ministro. Se não alertou, a responsabilidade é dele.»

— Dizer que tem havido outros assaltos do mesmo género que o de Tancos em países como França ou Estados Unidos retira alguma gravidade ao que se passou na semana passada?

— Não, para mim, não tira. O que se passou em Tancos é uma coisa, o resto é outra. Com o mal dos outros estou eu bem.

— Então de que serve este argumento usado pelos responsáveis políticos?

— Existe para dizer que não é caso único, mas o que me preocupa é este caso, este país, com todas as consequências que isso tem em termos de segurança para as populações e para a imagem do país no exterior.

— Está-se a dar demasiada importância ao que aconteceu em Tancos?

— Não, não está. Isto é muito grave.

— Já disse que isto não podia ter acontecido.

— Não podia. A segurança nos depósitos de material de guerra sempre foi uma das preocupações das autoridades militares. Os paióis sempre foram uma grande preocupação. Isto é algo que nunca aconteceu na minha vida. Por todos os sítios por onde andei em guerra e, sem ser em guerra, em missões internacionais… Para uma coisa destas são precisos lapsos, asneiras, limitações grandes de meios.

— O que revela este assalto?

— A minha abordagem não tem nada de corporativo ou pré-partidário, não tem pré-posições a esse respeito. É só uma questão de interesse nacional e de avaliar o que se deve fazer para correr bem. Há aqui três ou quatro aspectos enquadrantes. Um deles é a cultura militar, que é fazer sempre a missão, mesmo com cortes de meios. Imagine: tem um orçamento de 100 mil euros e faz a missão. Cortam 10 mil, faz. Cortam mais 10 mil e faz. Até que a casa cai. A cultura é tentar sempre cumprir a missão.

— Sempre?

— Há momentos em que, como avisei várias vezes, a casa pode cair, o castelo de cartas vai abaixo. Há uma linha vermelha que não se pode ultrapassar.

— Neste caso, foi passada a linha vermelha?

— Isto já vem de trás, é um acontecimento que não se esperava. Acontece também que, do ponto de vista do sistema de Governo, houve uma grande alteração. Mesmo no tempo do professor Salazar e de Marcelo Caetano, os ministros mandavam nos ministérios. Tinham muito ou pouco dinheiro, mas o ministério era piramidal. O ministro estava no topo e tinha o seu dinheiro. De há 15 anos a esta parte, com a evolução da tecnologia e com a necessidade de controlar as finanças, o Ministério das Finanças entra, transversalmente, nas direcções gerais todas. Entra, corta, tira e põe. Os ministros não mandam, têm uma falta de poder muito grande. Até pode haver uma grande compreensão daquilo que são as necessidades da sua área, mas têm de negociar isso com o Ministério das Finanças. As Finanças têm uma acumulação de assuntos que, tendencialmente, fazem paralisar a máquina e, por outro lado, obrigam os ministros a negociar caso a caso. É um drama permanente.

— Essa intervenção das Finanças deve ser limitada?

— Há assuntos, tais como a segurança nacional que não podem ser tratadas dessa maneira. Não estamos a falar de ter ou não ter papel A4.

— Isso exige que na tutela esteja um ministro com poder político.

— Tem de ter poder político e compreensão, não pode ter uma posição em que diz que está ali para dar ordens. (...)

(...)

— Estávamos a falar de linhas vermelhas. Como é que esse princípio se aplica ao assalto a Tancos?

— As chefias militares das Forças Armadas têm missões para cumprir e essas missões têm de ter meios, uma estrutura, orçamento, pessoal. Na questão dos paióis, o que se passou é que, no tempo do dr. Aguiar Branco, o corte de meios em pessoal, em finanças e em material foi muito, muito, muito grande. As unidades ficaram muito reduzidas de meios, nomeadamente humanos.

— Ao ponto de já não se poder cumprir a missão?

— Isso não sei responder. Mas alguém há-de saber responder a isso. Este Governo ainda não conseguiu inverter isso. Agora, temos de ter a noção de que vivemos num tempo de paz e de calma, mas o mundo não vive. Nós estamos aqui relativamente tranquilos mas o mundo não está. Temos de estar preparados para qualquer situação de imprevisibilidade em que tenhamos de responder no âmbito da segurança nacional, da segurança na aliança Atlântica, em que temos o nosso papel, dentro da UE, dentro da CPLP, dentro da ONU e queremos sempre tomar parte disso. Mas não podemos fazê-lo deixando o interior do país, as ilhas e o mar completamente desprotegidos. Quando chegamos à questão dos paióis, a localização daquela estrutura obriga a que tenha uma segurança óbvia, até porque é a zona onde há mais meios militares. Se os meios militares baixarem até um determinado nível, a partir de certa altura não se pode garantir a segurança.

— Os dados que foram conhecidos indicam que a segurança naquela infraestrutura estaria a cargo de 10 militares.

— Mas não foi sempre assim, já foram 30. E 30 não é a mesma coisa que 10, independentemente da videovigilância, porque em 1980 não havia videovigilância. Mas o mundo também era diferente. Isto de se fazerem assaltos a estes locais não existia.

— Portugal não acompanhou essa evolução em termos de segurança?

— Por um lado, tivemos os cortes no orçamento e no pessoal. Por outro lado, tínhamos o sistema de videovigilância que estava obsoleto e ia ser substituído. Onde é que está a falha? A falha está em dizer que determinado equipamento não está em condições, que esse equipamento é vital e não pode ser sujeito à rotina da burocracia.

— Não se pode esperar dois anos para intervir…

— Tem de ser já. E aí é que o chefe militar tem de dizer que não se responsabiliza e perguntar ao ministro se assume a responsabilidade. Tem de dizer que não tem condições para fazer a segurança. Normalmente, quando as coisas são postas assim, a resposta é positiva. As pessoas não querem ficar com a responsabilidade em cima. Mas, historicamente, não são os ministros que ficam com a responsabilidade em cima, são os generais e os almirantes. Situações de grande responsabilidade não podem ser tratadas como situações de rotina, são situações excepcionais e não podem ter uma decisão de rotina.

(...)

— O comandante do Exército não deve ter essa capacidade independentemente das circunstâncias?

— Tem. E tem de avisar: «Olhe que a partir de agora não garanto a segurança disto.» E admito que tenha avisado. Agora, não sei de quem é a responsabilidade.

(...)

— Fica a sensação de que está tudo refém dos inquéritos. Não há tomadas de posição pessoais sobre as falhas, não se assume responsabilidade e não se tiram consequências se não houver um inquérito que atribua essa responsabilidade.

— O CEME acha que estava a fazer o melhor que podia com a segurança dos depósitos de material de guerra. Não tenho dúvidas de que isso é verdade, mas dentro de uma linha de rotina. Não numa linha de situações excepcionais. Nessa linha de situações excepcionais, não respondeu. No mecanismo de pensamento militar, em todas as situações têm de se ver as hipóteses, as chamadas modalidades de acção: qual é a modalidade mais perigosa e qual é a mais provável. Neste caso dos paióis, tinha de se fazer um cuidadoso misto. Julgo que nunca acreditaram na possibilidade de aquilo ser assaltado. Porque se tivessem acreditado o esquema montado teria sido diferente.

— O senhor tem um responsável identificado, só não quer apontá-lo.

— Pode deduzir isso do meu pensamento, mas eu não sei qual é o responsável. Porque se o CEME alertou o ministro para as consequências graves que esta situação tinha, o responsável é claramente o ministro. Se não alertou, a responsabilidade é dele.

(...)

— António Costa tem de intervir directamente neste processo?

— Ele está no topo do executivo.

— Em Setembro morreram dois instruendos do curso de Comandos e, nesse momento, o CEME não suspendeu nem exonerou qualquer responsável militar. O CEME devia ter agido?

— Não lhe sei dizer porque a estrutura do regimento de Comandos obriga a vários patamares de responsabilidade. Pode ter acontecido que ao nível do comando tudo tenha sido bem feito e tenha sido mal executado por outras pessoas. Nestas forças especiais, existe gente muito nova cheia de vontade de fazer coisas e que depois exagera.

(...)

— Tancos não é a única infra-estrutura com elevado grau de sensibilidade. Há outros pontos em que a segurança possa estar comprometida e para que se deva olhar?

— Julgo que não é a minha opinião que conta. Julgo que isso é imediato. Assim que isto aconteceu até o senhor ministro se envolveu e disse que tinha de ser feita uma fiscalização cuidadosa noutros paióis. No que respeita à dimensão e importância, os maiores são os de Santa Margarida. Existe um depósito de material NATO, na margem sul, mas é da NATO.

— O assalto a Tancos teve grande repercussão internacional. A imagem do Exército fica fragilizada com este episódio?

— Acho que sim, o próprio CEME disse isso.

(...)

— E não podemos ficar a perder na relação com os parceiros da NATO, parceiros europeus, etc.?

— O facto em si é muito mau, mas daí a tirar consequências gerais para o futuro não creio que possa acontecer.

— Que lição se deve tirar de tudo isto?

— Nunca deixar passar a linha vermelha. É bom não esquecer isto: quem fica sempre com a responsabilidade são os chefes militares. Os políticos passam, mudam, vão fazer outra coisa, até podem ser substituídos, mas não ficam com a responsabilidade. O chefe militar tem de ter o cuidado de não deixar entrar estas situações em incapacidade de cumprimento.

— Fazendo esse alerta, e não havendo a tal resposta por parte do poder político de que falava, o chefe deve sair?

— Isso tem de ser analisado caso a caso, pessoa a pessoa. Alertando, conforme a gravidade da situação, então deve dizer que não contem mais com ele.

(...)





terça-feira, 4 de julho de 2017

Macron e o seu trono de duas pernas



Nelson Ribeiro FragelliABIM

Em Outubro de 2016 uma sondagem de opinião do prestigioso instituto francês IPSOS fazia uma revelação: 88% dos franceses estão profundamente insatisfeitos com os rumos do país.

Em Maio deste ano, um novo estudo de opinião — o relatório anual do Conselho Económico, Social e Ambiental (CESE) — agravou ainda mais o ânimo nacional. «Le Monde» (24-5-17) cita trechos deste estudo, revelador do actual pessimismo dos franceses que, desorientados, não sabem o que fazer. Não se mobilizam e consideram-se condenados a viver dias ainda piores. O estudo acrescenta que se torna urgente um despertar colectivo.

À maneira de resumo das suas conclusões, o relatório põe em destaque uma frase do socialista histórico Jean Jaurès, pronunciada pouco antes do seu assassinato em 1914: «Há em França, a propósito dos problemas vitais, uma inércia do pensamento, uma sonolência do espírito.» As recentes eleições presidenciais e legislativas confirmam este diagnóstico.

*       *       *

Diante deste quadro, tudo se arranja na política francesa para que o recém-eleito jovem presidente Emmanuel Macron erga a cabeça do seu país entorpecido. O esforço publicitário para apresentá-lo revestido de grandezas passadas é imenso. Jornais e revistas, de esquerda e de direita, apresentam-no vistosamente em uniformes de Napoleão ou sentado com majestade num trono.

Vladimir Putin veio homenageá-lo. O encontro foi no majestático cenário do Palácio Real de Versalhes, cujos suntuosos corredores e salões ambos percorreram. Na Galeria das Batalhas cercaram-se de pinturas magníficas de combates legendários. Quinze séculos de heroísmo os emolduravam, desde Clóvis, vencedor de Tolbiac em 496, até as vitórias de Napoleão em Austerlitz e Wagram. Seriam os dois vivazes políticos, de passado desconhecido, emanações modernas daqueles heróis? A encenação sugeria-o. Mas os personagens não cabiam no papel...

Os jardins de Versalhes acolheram os seus passos. Putin, habitualmente inexpressivo, olhava para Macron como um ajudante de ordens poderia olhar o seu general após a vitória. E Macron parecia não vê-lo. Fitava o longínquo horizonte em sonhos grandiosos...

A representação não está a convencer. Apenas eleito, Macron deveria ser confirmado pelo voto popular na primeira volta das eleições parlamentares, em 11 de Junho. O seu partido saiu favorito, mas com o menor número de votos já obtidos por um governo na V República. A abstenção bateu um recorde histórico. Não houve o «despertar colectivo» desejado pelo CESE.

Em 18 de Junho deu-se a segunda volta. Novo recorde de abstenção: 57%. Somados aos votos em branco, temos 64% dos eleitores que não se importam com Macron, nem com os rumos da Nação. No dia seguinte, o jornal alemão «Die Welt» escreveu que a encenação tentava pôr Macron no trono de Júpiter, o pai dos deuses. Mas, a olhos vistos, não está a dar resultado. Apesar do desprezo dos eleitores, Macron obteve maioria parlamentar. Só que o seu trono tem apenas as duas pernas de trás. As duas da frente são as dele mesmo.





domingo, 2 de julho de 2017

Recrutamento russo nas redes sociais




Luis Dufaur

Ladislav Kasuka redigia a sua costumeira diatribe stalinista contra o Ocidente num site checo quando começou a receber mensagens oferecendo-lhe dinheiro para organizar protestos de rua. A primeira mensagem, recheada de bajulações pelo seu trabalho, chegou em russo, enviada por alguém que ele desconhecia. De início, a oferta foi de 300 euros. Era para Kasuka, um esquerdista sem um tostão, comprar bandeiras e cartazes para uma manifestação pública contra a OTAN e o governo pró-ocidental da Ucrânia.

Em seguida, ofereceram-lhe mais 500 euros para comprar uma videocâmara e publicar os seus vídeos na Internet. Kasuka ficou perplexo, mas foi aceitando. Pouco depois estava enleado numa estranha trama que funcionava nas redes sociais teledirigida pela Rússia. O seu caso foi apenas um entre muitos na Europa Oriental e Central, resultantes de uma campanha de influência frenética, por vezes grosseira, financiada por Moscovo e dirigida por Alexander Usovsky, agitador nacionalista russo, sicário ideológico numa batalha para ganhar almas e mentes nos fios da Internet.

Ladislav Kasuka

O seu objectivo é recrutar activistas estrangeiros e irrigá-los com dinheiro fornecido por «oligarcas» e agentes do Estado putiniano. Usovsky «é um bom caso de estudo sobre os métodos russos», disse Daniel Milo, ex-funcionário do Ministério do Interior eslovaco, especialista em extremismo da Globsec, grupo de investigação de Bratislava. «Ele é uma pequena engrenagem de uma grande indústria. E poderia haver dúzias como ele», opinou Milo.

Usovsky montou uma rede de sites em várias línguas e criou uma fundação falsa, cuja fachada era promover a cultura. Apresentou orçamento de milhares de euros a Malofeev para promover candidatos pró-russos nas eleições polonesas, mas não conseguiu fazer vencer um só. Identificou contudo sócios na Europa Oriental e Central dispostos a receber a sua ajuda. Ampliou na Internet as vozes radicais, fez com que pequenas passeatas parecessem muito maiores do que eram.

Trabalhou com os media russos para garantir que «os seus» colaboradores estrangeiros recebessem ampla cobertura nos órgãos moscovitas. Por isso Kasuka, o stalinista checo, aparece habitualmente nos media russos como conceituado comentarista de geopolítica e de assuntos checos. Chegou a dizer por meio da Russia Today que os EUA poderiam lançar uma bomba atómica sobre a Ucrânia e culpar a Rússia para assim provocar uma guerra.

«É uma loucura total», comentou Roman Maca, analista sediado em Praga. «O Canal Um russo apresentou como notícia séria um protesto de 10 pessoas que na sua maioria seriam candidatas ao internamento num hospital psiquiátrico». Usovsky acabou por cair em desgraça, mas foi atrás de outros doadores com planos detalhados para montar uma «quinta coluna pró-russa», canalizando dinheiro para políticos anti-OTAN e a anti-UE.

Por sua vez, Kasuka desanimou das arruaças e agora concentra-se no estudo da filosofia marxista, dos «logros» de Stalin e da miséria causada pela exploração capitalista. Talvez esteja lendo a «Laudato Si».