quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Alemanha, Áustria: Imãs advertem muçulmanos a não se integrarem

Centro Islâmico de Viena.
(Imagem: Zairon/Wikimedia Commons)

Stefan Frank, Gatestone Institute, 3 de Janeiro de 2018

Original em inglês: Germany, Austria:
Imams Warn Muslims Not to Integrate

Tradução: Joseph Skilnik

  • «Enquanto fora da mesquita se conversa muito sobre integração, dentro dela o contrário é pregado. Somente em casos excepcionais, trechos do sermão, e mais excepcionalmente ainda, todo o sermão, é traduzido para o idioma alemão...» — Constantin Schreiber, autor de Dentro do Islão: O que está a ser pregado nas mesquitas da Alemanha.
  • «Os políticos que enfatizam repetidamente a intenção de cooperarem com as mesquitas, que convidam os seus membros para conferências sobre o Islão, não fazem ideia de quem está a pregar o quê naquelas mesquitas». − Necla Kelek, consagrada activista dos direitos humanos e crítica do Islão, no Allgemeine Zeitung.
Na polémica que gira em torno dos migrantes na Alemanha e na Áustria, nenhum outro termo é usado com mais frequência do que «integração». Contudo, a instituição mais prestigiada por muitos migrantes muçulmanos, via de regra, não colabora muito neste empreendimento e não raramente se opõe a ele, qual seja: a mesquita. Esta é a conclusão de um estudo oficial austríaco, bem como de um levantamento do sector privado realizado por um jornalista alemão.

No final de Setembro, o Austrian Integration Fund (ÖIF), órgão do Ministério das Relações Exteriores, publicou o estudo: «o papel da mesquita no processo de integração». Para efeitos do estudo, funcionários do ÖIF estiveram em dezasseis mesquitas em Viena, participaram em diversos sermões à sexta-feira e conversaram com os imãs em segredo, isto é, quando os imãs se disponibilizavam a conversar, o que amiúde não era o caso. A conclusão, de acordo com o ÖIF, é que apenas duas das associações de mesquitas fomentam a integração dos seus membros. O estudo aplaude uma associação de mesquitas da Bósnia que também dirige um clube de futebol. Durante a conversa, o imã salientou: «qualquer país, como a Áustria por exemplo, tem as suas leis e os seus costumes e não me canso de dizer, é nosso dever religioso respeitar as normas e integrar-se como manda o modelo».

No tocante aos papéis de género, em todas as mesquitas em que estiveram, os autores foram surpreendidos pela quase total ausência de mulheres nas rezas à sexta-feira:

«Apenas três das mesquitas percorridas... proporcionam espaço reservado para as mulheres, reservado e ocupado por elas. Caso haja este tipo de acomodação, a maioria das mesquitas também transforma estes espaços à sexta-feira em lugares para os homens».

Separação por etnia

Salvo raríssimas excepções, as mesquitas de Viena são divididas de acordo com a etnia:

«Há mesquitas turcas, albanesas, bósnias, árabes, paquistanesas e outras, nas quais os sermões são, via de regra, proferidos exclusivamente no respectivo idioma da terra natal. Somente em casos excepcionais, trechos do sermão, e mais excepcionalmente ainda, todo o sermão, é traduzido para o idioma alemão».

Portanto as associações de mesquitas são «espaços fechados em termos de etnia e idioma». Esta diferenciação estimula a «integração social num ambiente étnico próprio e, consequentemente, a segmentação étnica». Em oito das dezasseis mesquitas avaliadas, esta propensão é ainda mais reforçada pelo «nacionalismo predominante, flagrantemente difundido».

A mesquita gerida pelo movimento turco Milli Görüs destacou-se pelo alto grau de radicalismo. Milli Görüs é uma das organizações islâmicas da Europa mais influentes e está intimamente ligada ideologicamente ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan. De acordo com o estudo, o imã da mesquita de Milli Görüs «defende abertamente o estabelecimento de uma Ummah (nação muçulmana) politicamente unida regida por um califado». Atribui a instabilidade no Islão à fitna («revolta») trazida para a comunidade islâmica de fora para dentro. Segundo os autores do estudo, o imã «vê-se cercado em todo o lado pelos inimigos do Islão que querem impedir a comunidade islâmica de dominar o mundo conforme previsto nas profecias». Nos três serviços religiosos nos quais participámos, o tema crucial era a unidade dos muçulmanos: muçulmanos de um lado, «infiéis» do outro. De acordo com o estudo, algumas das declarações do imã indicaram uma «pesada visão do mundo impulsionada por teorias da conspiração», como por exemplo: «as forças que estão fora da Ummah fizeram tudo o que estava ao seu alcance para minar a percepção da Ummah pela própria Ummah».

A conclusão do estudo assinala:

«Em síntese, poder-se-ia dizer que das dezasseis associações de mesquitas avaliadas neste estudo, com excepção das mesquitas D01 (uma das poucas mesquitas de língua alemã) e B02 (a mesquita da Bósnia mencionada acima), que não promovem diligentemente a integração social dos seus membros. Na melhor das hipóteses não impedem que isso ocorra. Na maioria das vezes têm em si um efeito inibitório no processo de integração».

Conforme a matéria, seis das dezasseis mesquitas avaliadas (37,5%) cortejam «uma política que impede diligentemente a integração dos muçulmanos na sociedade e, até certo ponto, manifestam propensões fundamentalistas». Metade das dezasseis mesquitas examinadas «pregam uma visão do mundo dicotómica, cujo princípio central é a divisão do mundo em muçulmanos de um lado e o restante do outro». Constatou-se que seis das mesquitas praticavam o «enxovalhamento explícito da sociedade ocidental».

Recriminação ao estilo de vida na Alemanha

Observações parecidas foram feitas pelo jornalista alemão Constantin Schreiber que em 2016 passou mais de oito meses a assistir a serviços religiosos à sexta-feira em mesquitas alemãs. Schreiber, fluente em árabe, é conhecido como moderador de programas de televisão em árabe, nos quais explica como funciona a vida na Alemanha aos imigrantes. Publicou as suas experiências nestas mesquitas num livro que esteve na lista dos best sellers na Alemanha durante meses a fio: Dentro do Islão: O que está a ser pregado nas mesquitas da Alemanha.

Schreiber apresentou-se às associações das mesquitas como jornalista, revelando que pretendia escrever um livro de não ficção sobre as mesquitas na Alemanha. Pouquíssimos imãs se dispuseram em aceitar conceder uma entrevista. Numa ocasião, foi informado de que era «proibido» falar com ele. Normalmente os imãs com os quais era permitido conversar não falavam praticamente nada de alemão. «Ao que tudo indica, é possível viver na Alemanha durante anos a fio, com esposa e filhos e sequer ser capaz de falar alemão ao comprar pão», salienta Schreiber.

Um assunto habitual nos sermões que Schreiber assistiu nas mesquitas consistia em recriminações ao estilo de vida na Alemanha.

«Vira e mexe, como acontece na mesquita Al-Furqan (mesquita árabe sunita em Berlim), os muçulmanos parecem estar comprometidos com a ideia de que são uma espécie de comunidade com um destino em comum: 'vocês são a diáspora! Nós somos a diáspora! Eles (alemães) assemelham-se a uma torrente que vos aniquila, que vos destrói e tira de vos os valores e substitui-os pelos valores deles'».

Na mesquita sunita/turca Mehmed Zahid Kotku Tekkesi em Berlim, no sermão à sexta-feira, no dia anterior à véspera de Natal, o imã alertou para a ameaça do «maior de todos os perigos», o «perigo do Natal»: «todo aquele que imita outra tribo torna-se membro dela. É a nossa passagem do Ano Novo? As árvores de Natal têm algo a ver com a gente? Não, nada a ver com a gente!»

O imã da mesquita de Al-Rahman em Magdeburg comparou a vida na Alemanha com um caminho através de uma floresta sedutora, realça Schreiber. Os seus encantos têm o poder de desviar os muçulmanos, de afastá-los do caminho da virtude, de perderem o caminho na «mata densa» até serem «devorados pelos animais selvagens que vivem na floresta».

O Estado não tem uma panorâmica clara

O que chamou a atenção de Schreiber, ainda no estágio de planeamento das visitas às mesquitas, foi a falta de transparência envolvendo as mesquitas na Alemanha. Para começar, não existe um directório oficial de mesquitas. Ninguém sabe quantas mesquitas existem na Alemanha. O Website Moscheesuche.de, mantido pela iniciativa privada, é o único cadastro desta natureza. «De modo que as autoridades alemãs», salienta Schreiber, «dependem de cadastros compilados por um particular, que obviamente é caracterizado por um determinado posicionamento ideológico». Além disso, como a inserção de dados no cadastro é voluntária, é incerto se as mesquitas que desejam permanecer à socapa estejam lá cadastradas. Schreiber considera improvável que o cadastro esteja perto de ser concluído ou actualizado:

«Deparei-me com mesquitas que constam do cadastro, mas já não existem, pelo menos por enquanto. Ou então mesquitas recém inauguradas que não estão registadas em nenhum lugar, nem os serviços de inteligência nem as autoridades regionais sabem da sua existência».

Além disso, o pedido de Schreiber à prefeitura de Hanover revelou que as autoridades alemãs sentem-se constrangidas no tocante ao fornecimento de informações sobre as mesquitas da sua própria cidade. Um funcionário da administração local escreveu num e-mail: «por gentileza, forneça informações mais detalhadas sobre a finalidade do cadastro. Não queremos que estas instituições estejam sob suspeição generalizada».

Medo e silêncio

Schreiber ficou surpreendido com a reacção defensiva daqueles cujas profissões exigem transparência e cooperação. Como Schreiber queria certificar-se de que, na tradução dos sermões, não haveria nenhuma interpretação errada, contactou o que afirma ser uma das agências de tradução mais conceituadas da Alemanha:

«A agência solicitou o envio da transcrição de um dos sermões para análise e estimativa de precificação. A agência recusou o trabalho. O texto foi considerado 'fora da alçada habitual de trabalho' dos tradutores, uma vez que não havia ninguém suficientemente seguro para traduzir correctamente este tipo de texto».

Achar um tradutor dos sermões proferidos no idioma turco também foi difícil: «o simples facto de estar interessado neste assunto resultava na imediata acusação de que o que eu realmente queria era instigar «atacar o Islão».

Schreiber também se viu diante de forte resistência ao procurar estudiosos alemães especializados no Islão para conversar com eles sobre o conteúdo dos sermões. Professores universitários, cujos salários são pagos pelos contribuintes alemães, recusaram-se em providenciar informações sobre matéria relacionada com a sua própria especialidade.

«Durante meses a fio, enviei consultas a diversas faculdades de estudos islâmicos com as quais trocávamos ideias na nossa função de editores. Uma universidade ficou a enrolar-me durante meses com a desculpa de que ainda estavam a procurar a pessoa certa. Em 16 de Dezembro, isto é, três meses depois do meu primeiro pedido, o professor de estudos islâmicos escreveu-me que já não havia tempo suficiente para marcar uma reunião. Quando respondi que, se necessário fosse, poderíamos marcar outra reunião no início de Janeiro, não recebi mais nenhuma resposta. Vários professores da universidade pediram-me para que lhes enviasse os sermões, o que eu fiz de imediato. Após enviá-los não recebi mais nenhum e-mail, sequer uma confirmação do recebimento».

Segundo Schreiber, todo este trabalho mostrou ser uma «experiência interessante», a despeito do facto de estudiosos de estudos islâmicos e especialistas em Islão «serem por demais prestativos em se disponibilizarem em conceder entrevistas sobre questões de política actual». Entretanto, esta abertura não existe, quando se trata de sermões em mesquitas alemãs: «inúmeros especialistas evitam-me após receberem as minhas perguntas, sem responderem, de forma consistente, aos meus e-mails». Um estudioso do Islão  aconselhou-me, indirectamente, a abandonar o projecto, porque isso poderia, «hipoteticamente», «aumentar ainda mais o abismo». Porquê isto? Porque, segundo este estudioso de estudos islâmicos, «mesmo leitores liberais e tolerantes poderiam facilmente achar estes textos extremamente incompreensíveis e estranhos, bem como grosseiros».

Políticos ingénuos

A conclusão de Schreiber sobre os sermões que presenciou:

«Após 8 meses de pesquisa devo dizer que as mesquitas são espaços políticos. A maioria dos sermões em que participei visava resistir à integração dos muçulmanos na sociedade alemã. Quando o assunto se voltava para o estilo de vida na Alemanha, isto acontecia primordialmente em contexto negativo. Normalmente os imãs retratavam a vida quotidiana na Alemanha como ameaça e exortavam as suas comunidades a resistirem. A característica comum de quase todos os sermões é o apelo aos fiéis para se fecharem e não compartilharem».

Em «todas as mesquitas praticamente», Schreiber notou a presença de «dezenas de refugiados que não estavam há muito tempo na Alemanha». Eles também tinham sido alertados para o perigo da integração: «fora da mesquita há muita conversa sobre integração, o contrário é pregado dentro dela».

O perigo desta abordagem fica evidente pelo assassinato de Farina S., uma afegã que foi assassinada na cidade bávara de Prien. Há oito anos ela abandonou o Islão, converteu-se ao cristianismo e, dois anos depois, fugiu para a Alemanha. Em 29 de Abril, foi assassinada por um muçulmano afegão em plena luz do dia. Inúmeros muçulmanos que moram na cidade foram ao funeral, ao passo que as associações de mesquitas faziam de conta que o assassinato não lhes dizia respeito. Karl-Friedrich Wackerbarth, pastor da igreja evangélica de Prien, onde Farima S. era filiada, pediu às associações que condenassem o crime. Em Outubro, meio ano após o assassinato, respondeu a um pedido do Gatestone Institute: «lamentavelmente, até hoje», salientou, «ninguém se manifestou».

Wackerbarth acha que as associações islâmicas não querem emitir um comunicado contra as fatwas emitidas pela Universidade Al-Azhar do Cairo e de outras, segundo as quais os «apóstatas» (aqueles que abandonam o Islão) devem ser mortos.

Este quadro levanta a questão da razão do governo alemão acreditar que as associações de mesquitas o ajude a resolver os problemas. Não faz muito tempo, a consagrada activista dos direitos humanos e crítica do Islão, Necla Kelek salientou:

«Os políticos que enfatizam repetidamente a intenção de cooperarem com as mesquitas, que convidam os seus membros para conferências sobre o Islão, não fazem ideia de quem está pregando o quê naquelas mesquitas».





domingo, 3 de dezembro de 2017

«Certos laicoides exploram o medo ao Islão para acabar com o cristianismo»


El filósofo Rémi Brague pide que no se use la laicité como arma contra la religión
ni se metan todas las religiones en el mismo saco

Rémi Brague, ReligiõnenLibertad, 1 de Dezembro de 2017

(Traducción del francés de Le Figaro por Helena Faccia Serrano)

Rémi Brague es un filósofo francés, especialista en filosofía medieval árabe y judía. Miembro del Institut de France, es profesor emérito de la Universidad Panthéon-Sorbonne. Autor de numerosas obras, sobre todo Europe, la voie romaine, ha publicado recientemente en español  «El Reino del Hombre, génesis y fracaso del proyecto moderno» (Ediciones Encuentro). Le entrevistó, a a principios de noviembre, Alexandre Devecchio en Le Figaro Vox, acerca de las contradicciones – o quizá estrategias – del laicismo francés.

La decisión del Consejo de Estado, obligando al alcalde del ayuntamiento de Ploërmel a retirar la cruz que domina la estatua del Papa Juan Pablo II, ha suscitado la colera de miles de internautas. ¿Cómo explica usted el alcance de estas reacciones espontáneas?

— Rara vez navego por las redes sociales y, cuando lo hago, muy a menudo me consterna la simpleza y las expresiones groseras y de odio de todo lo que se dice con la protección del anonimato.

»Ahora bien, respondiendo a su pregunta, dos pueden ser las razones: por una parte, la laxitud ante estas continuas medidas contra las cruces, los belenes, etc.; por la otra, la exasperación ante la mezquindad que implican esas medidas. En Bretaña no se puede lanzar una teja sin que caiga sobre un calvario [una escultura, a veces enorme, representando Cristo en la cruz con María, Juan, las mujeres y el pueblo a sus pies, frecuente en plazas y cruces de caminos, nota de ReL] o un vallado parroquial. ¿Hay otro lugar más lógico para la ubicación de una cruz que encima de la estatua de un Papa?

— La decisión del Consejo de Estado, ¿es conforme al principio filosófico de la laicidad?

— No conozco las razones del Consejo de Estado. Quiero pensar, en honor a sus miembros, que están basadas en argumentos sólidos. En todo caso, la laicité no tiene en absoluto la dignidad de un principio filosófico [universal], sino que constituye una noción específicamente francesa. La palabra es, además, intraducible. Es un valor mal formulado, resultado de una larga serie de conflictos y compromisos. Da ahí la gran libertad en su interpretación.


Esta es la cruz de Ploërmel que se ordena retirar; muchos franceses y europeos protestan
desde la cuenta de Twitter
 #MontreTaCroix (Muestra tu Cruz), enseñando cruces históricas
en lugares públicos y emblemáticos de toda Francia.

Pero, ¿cómo se puede hacer aplicar la ley relacionada con el velo en la escuela y el burqa en la calle si no se aplica de manera estricta para todas las religiones?

— ¿Qué relación hay entre un monumento público y una parte de la vestimenta, que incumbe al ámbito privado? Lo correspondiente a la construcción de dicho monumento sería la construcción de una mezquita. ¿Quién lo prohíbe? Más bien al contrario, muchos ayuntamientos lo apoyan.


De todas formas, a menudo tenemos la impresión que en Francia aplicar un ley es más bien una opción. ¿Cuántas leyes han quedado sin decreto de aplicación? ¿Acaso se multa a las mujeres que llevan una vestimenta que esconde su rostro? ¿Se hace en «los barrios» [de la periferia]?

— ¿Es irreal querer aplicar la laicidad de manera igualitaria para todas las religiones en un país de cultura cristiana?

— «Todas las religiones»; esta expresión no quiere decir gran cosa. Lo que es verdad, es quela «laicité» a la francesa – expresión que, además, es tautológica – ha sido hecha a la medida del cristianismo, por personas que tenían un buen conocimiento del mismo. No olvidemos que Émile Combes había hecho sus tesis en Humanidades, una sobre Santo Tomás de Aquino y la otra (en latín) sobre San Bernardo.

»He tenido ocasión de explicar, además, que nunca ha habido separación entre Iglesia y estado, pues esto significaría que, previamente, hubo una unidad que fue desgarrada.

»Lo que sí hubo fue el final de una colaboración entre dos instancias que habían estado siempre bien separadas. Lo único que hizo la supuesta «separación» fue cortar una separación velada que tenía dos milenios de antigüedad. Los historiadores afirman que quienes han evitado con todo cuidado la contaminación han sido sobre todo los papas, no los emperadores o los reyes.

»El problema con el islam no es, como se dice demasiado a menudo, que no conoce la separación entre religión y política (de aquí, la estúpida expresión de «islam político»). Es más bien que lo que nosotros llamamos «religión» comporta una seria de reglas de vida diaria (alimentación, vestimenta, matrimonio, legado,) que se suponen son de origen divino y que, entonces, deben primar respecto a las legislaciones humanas.


— ¿Se puede utilizar la laicidad como un arma ante el islam? ¿No es un arma de doble filo?

— La laicidad no es, y no puede ser, un arma. Y en principio, por lo menos, no debe ser dirigida en absoluto contra una religión determinada. Digo esto porque la laicidad fue forjada, precisamente, contra una religión muy concreta, a saber: el cristianismo católico, al que pertenecía la gran mayoría de la población, de manera más o menos consciente, con mayor o menor fervor, en la época de la separación.

»La laicidad significa la neutralidad del estado en materia de religión. El estado no debe favorecer ninguna religión, pero tampoco combatir ninguna. El estado debe ser laico precisamente porque la sociedad no lo es.

»Algunos «laicoides» sueñan con acabar con el cristianismo, dándole el golpe de gracia que tanto esperan desde el siglo XVIII. Explotan el miedo que mucha gente tiene del islam para intentar expulsar del espacio público todo rastro de la religión cristiana que, justamente, es lo que puede hacer distraer la atención, y que además es la religión contra la que el islam, desde el principio, ha definido sus dogmas.

Ante el problema del islamismo, algunos observadores no dudan en condenar en bloque todas las religiones. Si en todas partes existen integrismos, ¿la amenaza es de la misma naturaleza? ¿Existe hoy en día una amenaza específica vinculada al islam?

— Primero de todo, lo que hay que observar es que la noción de «religión» es vacua y que cuando hablamos de «todas las religiones», lo que estamos haciendo es aumentar esta vacuidad.

»Oímos decir: «el islam es una religión como las otras», o lo contrario: «el islam no es una religión como las otras». Pero, ¡demonios!, ¡ninguna religión es como las otras!


»Cada una tiene su especificidad. Pero querer meter a todas en el mismo saco, y si hace falta, en el mismo cubo de basura: cristianismo, budismo, islam, hinduismo, judaísmo y, por qué no, las religiones de la América precolombina o de la antigua Grecia, es demostrar – y quiero ser educado – una singular cortedad intelectual.

»Aplicar la noción católica de «integrismo» o protestante de «fundamentalismo» a fenómenos que no tienen nada que ver con estas dos confesiones, es demostrar ser fumígeno más que otra cosa. Las más grandes masacres del siglo XX, el Holodomor de Ucrania y la Shoah, fueron perpetradas por regímenes que no sólo eran ateos, sino que deseaban erradicar la religión.

»¿Que si hay una amenaza vinculada al islam? La más grave no sería, seguramente, la violencia, que no es más que un medio para llegar a un fin: la sumisión de toda la humanidad a la Ley de Dios. Y si bien es cierto que es el medio más espectacular, ciertamente no es el más eficaz.





quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Sexo, drogas e noitadas: sabe o que anda a fazer o seu filho adolescente?


«Antigamente não havia discussões sobre sexo e drogas, hoje cada vez temos mais!
A inocência hoje é uma coisa diferente!» Francisco Fernandez, actor, 19 anos.

Fotografia Gustavo Bom

Rui Pedro Tendinha, NotíciasMagazine, 22 de Novembro de 2017

O Fim da Inocência conta a história, baseada em factos reais, de um grupo de adolescentes que experimenta na noite tudo o que os pais mais temem. A adaptação ao cinema do livro de Francisco Salgueiro – o último projecto de Nicolau Breyner mas que acabou por ser realizado por Joaquim Leitão – chega esta semana às salas e consegue mostrar o que muitos nem querem imaginar: uma vida paralela de sexo casual e consumo de drogas nas noitadas.

O que é que os adolescentes de boas famílias fazem na noite a partir das três, quatro da manhã? Muitos pais preferem nem imaginar. Mas, em O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, a adaptação do romance homónimo de Francisco Salgueiro, vemos um caso que pode fazer incidir a luz sobre o flagelo que atinge cada vez mais jovens.

Fotografia Gustavo Bom

O filme e o livro (talvez mais o livro) mostram explicitamente como raparigas e rapazes de colégio entram numa espiral de sexo, álcool e drogas sem os pais saberem. Tudo isto logo a partir dos 15 ou 16 anos.

E, segundo o autor, tudo é verdade: as festas, as orgias, as pastilhas, os riscos de cocaína e uma dissimulação que engana os pais mais distraídos. O livro [ed. Oficina do Livro, 2010] e, por consequência, o filme, relatam factos verdadeiros de uma adolescente que, depois de ser levada a perder a virgindade aos 15 anos, adopta um estilo de vida noctívago repleto de drogas e álcool.

Espelho de uma certa geração com pressa de experimentar tudo mais cedo e com ganas de viver a vida sem pensar no amanhã. Os jovens que não pensam nas consequências e encontramos nos bares de Santos, em Lisboa, ou nas Galerias da Baixa do Porto e que, depois, acabam por ser os mais populares no liceu.

Se esta história que Salgueiro descobriu pode ser um testemunho de uma tendência cada vez mais globalizante, é também uma oportunidade para um exame de como muitos pais podiam – deviam? – ter outra percepção acerca da vida social dos filhos.

Fim da Inocência chega aos cinemas numa altura em que o cinema de grande público em Portugal tem tido tempos duros, com fracassos atrás de fracassos. Mas o novo filme de Joaquim Leitão (que este ano já viu no final de Agosto o seu Índice Médio de Felicidade ser ignorado nas bilheteiras) terá um dos maiores lançamentos do ano e uma campanha forte para chamar adolescentes e pais aos cinemas, sobretudo a pensar no fenómeno que o livro conseguiu – mais de quarenta mil exemplares.

«Este é o primeiro filme português que atinge um target que não vê filmes portugueses», diz o autor.

Trata-se de um relato de um grupo de adolescentes abastados de Cascais que reflecte uma vida paralela de comportamentos sexuais irresponsáveis, dependência de álcool e droga sem controlo – muito para além dos charros, neste filme circula MDMA, cocaína e ectasy.

Fotografia Gustavo Bom

Francisco Salgueiro, sem filhos, especialista em livros destinados a jovens, supervisionou a produção do filme.

«Este é o primeiro filme português que atinge um target que não vê filmes portugueses», diz o autor. «O Fim da Inocência é para quem não gosta mesmo de cinema português, o mesmo que aconteceu com o livro, que era para um target dos que nunca liam. Os autores e os realizadores portugueses têm a mania de ser muito mais velhos do que aquilo que são.»

O escritor de 45 anos não foi o responsável pelo argumento (Roberto Pereira, de A Mãe é que Sabe foi o escolhido), mas teve um papel activo no casting, cuja primeira fase contou ainda com Nicolau Breyner, que esteve para realizar o filme. O Fim da Inocência foi a obra que a morte não deixou que fosse de Nico.

«Há aquele lema agora de que o pessoal quer fazer tudo num só dia, não deixar nada para amanhã», diz Francisco Fernandez, com 19 anos.

Oksana Tkash, Rodrigo Paganelli, Joana Barradas, Francisco Fernandez, Raquel Franco e Joana Aguiar são estrelas para um público juvenil depois de participações televisivas em séries e telenovelas. Ficaram famosos sobretudo nesta altura em que as redes sociais e as suas gestões criam casos de culto que passam ao lado da imprensa. Para já, têm uma habilidade tremenda: na câmara de Leitão parecem mesmo adolescentes (Raquel tem 26 anos, Joana e Francisco 19).

Fotografia Gustavo Bom

Juntos, estes actores mostram um entrosamento grande. A maior parte já se conhecia de trabalhos na televisão e conseguiram uma boa química durante as filmagens, em Agosto. Garantem que nunca se portaram como as personagens em perdição deste caso verídico, mas são os primeiros a dizer que nada do que se passa aqui é fantasia. «Há aquele lema agora de que o pessoal quer fazer tudo num só dia, não deixar nada para amanhã», diz Francisco Fernandez, com 19 anos, o mais novo dos rapazes, mas a opinião é partilhada por todos.

Raquel Aguiar, 26 anos, comunga dessa ideia de que a geração que veio a seguir à sua quer tudo mais rápido. «As situações que vemos no filme existem e há que falar e expô-las, mesmo que não possamos generalizar. Existe e não é só no Porto e em Lisboa. Trata-se de um fenómeno generalizado.» Um fenómeno que os pais desses adolescentes nem imaginam. Ou não querem, lembra Francisco Salgueiro.

É como se houvesse um desígnio comum de hedonismo automático,
de querer pisar os limites ou querer seguir uma moda de mau comportamento. E não deixa de ser curioso o filme chegar na altura em que se discute também o problema da segurança na noite com o caso da discoteca Urban Beach.

Rodrigo Paganelli, que interpreta um dos «maus rapazes» disposto a experimentar tudo, fala da pressão de uma sexualidade imposta. «O filme trata muito bem da pressão de ter de fazer muito mais do que a vontade deles. Todos falam de sexo e se não tiveres assunto aí sentes-te fora das conversas. Há uma obrigação cada vez mais cedo e não acho normal miúdos e miúdas de doze anos perderem a virgindade. Não me cabe na cabeça!»

O grande risco deste elenco estará, eventualmente, na protagonista, Oksan Tksah, uma jovem de 20 anos de origem ucraniana descoberta no mundo da moda. De todos, é quem tem menos experiência e consegue dar vida à Inês, a rapariga inocente arrastada para uma vertigem de sexo e drogas ainda antes dos 16 anos.

«Cresci no Alentejo e a dada altura tive de cuidar sozinha do meu irmão. Nunca estive perto desse mundo que o filme mostra. Não tenho mesmo nada a ver com a Inês nem nunca saí muito à noite. Quando me vi no trailer pela primeira vez apanhei um choque! Tenho receio de como as pessoas me vão julgar como actriz.»

Fotografia Gustavo Bom

Oksana nem sequer sabe se quer voltar a representar, agora que está a tirar Ciências Políticas na Universidade Católica. E tem também uma inquietação: «vejo o meu irmão, que agora tem dez anos, e fico espantada como as crianças têm acesso a tudo com uma velocidade enorme. Aliás, ao longo do filme percebi que sou superconservadora!»

O que Francisco Salgueiro descreve não se trata apenas de um pesadelo de uma certa camada social. Estes jovens podem ser betinhos de Cascais, mas quem sai à noite num after-hours percebe que «essa juventude perdida» inclui todas as classes.

É como se houvesse um desígnio comum de hedonismo automático, de querer pisar os limites ou querer seguir uma moda de mau comportamento. E não deixa de ser curioso o filme chegar na altura em que se discute também o problema da segurança na noite com o caso da discoteca Urban Beach.

Fotografia Gustavo Bom




segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Congresso Internacional sobre Cristóvão Colon


Caros amigos e interessados no tema,

A Associação Cristóvão Colon, em parceria com a Academia Portuguesa de História, a Academia de Marinha e a Comissão Portuguesa de História Militar, vai realizar o 1.º Congresso Internacional em Portugal sobre Cristóvão Colon.

Está aberto para comunicações de historiadores, académicos, pesquisadores ou estudiosos nacionais e estrangeiros, as quais serão seleccionadas pela Comissão Científica.

Solicitamos também a sua divulgação pelos meios que entenderem apropriados.

Em anexo poderão consultar a respectiva Apresentação e Call for Papers.

ou na nossa página

http://colon-portugues.blogspot.pt/


Cumprimentos

ACC

Carlos Calado





domingo, 12 de novembro de 2017

SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA





 O Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa tem a honra de convidar V. Ex.ª para participar na Conferência «O papel das Forças Armadas na luta contra o terrorismo no território nacional», promovida pela Secção de Ciências Militares.

A sessão terá lugar no dia 23 de Novembro de 2017

pelas 17h00 na Sala Algarve.

Será orador o Tenente General Manuel Vizela Cardoso

Rua das Portas de Santo Antão, 100 1150-269 LISBOA Tel.: 21 3425401/5068
geral@socgeografialisboa.pt www.socgeografialisboa.pt





terça-feira, 7 de novembro de 2017

Eutanásia: Eu sei, eu vi, eu estive lá



Laurinda Alves, Observador, 7 de Novembro de 2017

Não quero médicos que pensem que a minha vida já não vale a pena e se ofereçam para me matar, em vez de me encherem de confiança, esperança e cuidados. Arrepia-me a ideia do negócio à volta da morte.

Para o bem ou para o mal, nunca fui de grandes manifestações públicas. Não sou de ir para a rua celebrar vitórias em campeonatos nacionais e internacionais, mas também não sou de me juntar a grandes massas para distribuir panfletos, nem me é fácil gritar palavras de ordem e tenho pouco jeito para andar com cartazes ao alto. Houve alturas em que senti que era meu dever fazê-lo, e fi-lo, mas sempre com algum desconforto. Não me orgulho nada deste desconforto, note-se, apenas o reconheço por me conhecer o suficiente para saber que a minha inclinação natural é expressar-me por palavras escritas em jornais ou revistas, e ditas em fóruns, entrevistas, debates ou encontros onde posso olhar as pessoas nos olhos.

Felizmente não são todos como eu, porque senão estaríamos tramados. Que seria do mundo sem a coragem dos que saem à rua para gritar, para se indignar, para lutar, para interpelar, para empunhar cartazes e repetir palavras de ordem?

Posto este ponto prévio, que me coloca em lados de barricadas porventura menos panfletários, mas nem por isso menos eficazes, assumo que ultimamente fui a duas manifestações públicas por sentir que não podia deixar de estar presente. A primeira juntou milhares de pessoas em todo o país. Muitas delas no Terreiro do Paço, em Lisboa, num encontro marcado pelo silêncio de apoio às vítimas dos incêndios e seus familiares. Não havia megafones nem slogans ensaiados, não houve palavras gritadas nem bandeiras para além das da solidariedade que nos uniu e manteve juntos, até cumprirmos um minuto de silêncio em simultâneo com todos os portugueses que saíram à rua nas suas cidades e comunidades à mesma hora, pelas mesmas razões.

Nessa tarde sentimos o irreprimível impulso de nos juntarmos para que os que mais sofrem pelas mortes, pelas perdas de bens e por toda a devastação provocada pelos incêndios sentissem que não estão sozinhos na sua dor. Era mais isto que nos movia do que protestar contra quem quer que fosse, ainda que todos saibamos que qualquer multidão composta por cidadãos de diferentes gerações e com distintas opções tem sempre impacto político.

A segunda manifestação pública foi a Caminhada pela Vida, no sábado passado. Em Lisboa caminharam milhares de pessoas, mas também houve centenas e centenas a associarem-se no Porto e em Aveiro. Embora tenha estado activa em anteriores campanhas e seja radicalmente a favor da vida, especialmente nas fases mais vulneráveis (seja ainda em embrião ou no cúmulo de debilidades provocado por doença ou incapacidades), nunca tinha ido numa caminhada pela vida. Defendi sempre as minhas causas e os meus pontos de vista em palcos públicos destinados ao debate, mas também nos meios e lugares mais ou menos visíveis onde somos chamados a ser coerentes na acção e a assumir os nossos ideais. Desta vez senti necessidade de voltar a sair à rua para me juntar aos mais combativos que gritam e empunham cartazes.

Num tempo politicamente estranho em que se confundem prioridades e de tudo se faz uma causa fracturante, é importante unirmo-nos pela vida. Em particular pela vida dos que sofrem, independentemente do sofrimento ser provocado por doenças ou por catástrofes naturais e acidentais.

Caminhar pela vida é afirmar que a vida humana é o bem mais valioso de todos e, por isso mesmo, tem que ser defendido e protegido. Sabemos que em situações de maior aflição, o impulso natural do ser humano é cuidar e proteger o outro ser humano. A solidariedade, o espírito de entreajuda e o sentido de resgate revelam-se diariamente e são prática comum no quotidiano, sempre que nos deparamos com pessoas doentes ou frágeis, deprimidas ou desistentes, a quem tentamos dar apoio e devolver o sentido da vida, mas também em teatros de guerra e nos conflitos mais sangrentos. Os inimigos matam e morrem, mas nas linhas da frente de uns e outros há e haverá sempre exemplos de grande altruísmo.

Lemos notícias e livros, vemos filmes e documentários que narram o testemunho de heróis comuns que arriscaram ou perderam a própria vida para salvar outras vidas. Exemplos como estes interpelam e tocam em fibras sensíveis pois nunca saberemos como agiríamos em situações semelhantes. A única certeza que temos é a de que a morte é irreparável e, por isso mesmo, sabemos que instintivamente faríamos tudo o que estivesse ao nosso alcance para preservar a vida. A nossa e a dos outros.

Preservar a vida é um instinto de sobrevivência, mas também um desígnio e uma demanda interior do ser humano. Daí a estranheza que provoca a aparente facilidade com que se pretende legislar a eutanásia, sem antes tratar de aprovar leis que assegurem a todos os cidadãos, sem excepção, o acesso a cuidados paliativos. Começar pelo fim e pelo que é absolutamente irreversível nem sequer é começar uma casa pelo telhado, é tentar construir sem chão nem tecto.

Nenhum ser humano no seu estado natural é capaz de empurrar outro ser humano desesperado, quando o vê prestes a atirar-se de uma ponte. O instinto de sobrevivência e a demanda pela preservação da vida impedem-nos de o fazer e levam-nos a evitar que o pior aconteça. Numa situação destas todos teríamos o impulso de salvar, de resgatar, de ajudar a perceber como aquela vida ainda poderia voltar a ter sentido. Empurrar para o abismo de uma ponte ou para a guilhotina de uma linha do comboio alguém no auge do seu sofrimento e desespero não está no código genético de nenhum ser humano. É desumano.

Dizer a alguém que a sua vida não tem sentido e concordar que a única saída é a morte, oferecendo-se para colaborar com esta morte no extremo da sua fragilidade, é equivalente a empurrar para o abismo e desumaniza uma sociedade inteira. Legislá-la é ir contra toda uma cultura humanista que tantos séculos levou a cimentar, mas também é violar a Constituição e ofender todos os que lutaram e lutam para manter activa a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Convocar profissionais de saúde a praticarem eutanásia vai contra todos os Códigos de Ética médica, incluindo a revisão actualizada do Juramento de Hipócrates na Assembleia Médica Mundial (Declaração de Genebra de Outubro de 2017).

Margarida Neto, médica especialista em temas de família e uma referência nacional em matéria de defesa da vida, esteve nesta mesma caminhada e levantou a voz para recordar factos e números que dão que pensar nesta fase em que tudo ainda é possível.

«Poucos países no mundo aprovaram a eutanásia ou o Suicídio Assistido. Dos cerca de 200 que existem, apenas 5 votaram a favor: a Holanda, a Bélgica, o Luxemburgo, a Suíça e o Canadá. Nos Estados Unidos apenas 4 estados (dos 50) aceitam a eutanásia. Em Inglaterra e França a eutanásia foi liminarmente rejeitada». O enunciado dá que pensar.

Aquilo que me fez caminhar entre a multidão de seis mil pessoas que encheu ruas e avenidas no sábado foi a necessidade vital de juntar a minha voz às vozes dos que gritam e lutam, dos que combatem e não desistem de tentar esclarecer que ser morto não é um direito, assim como matar nunca será um dever. Muito menos um acto de compaixão.

«Sabemos pelos países que legalizaram a eutanásia – e os números estão nos relatórios! – que muitas vezes a eutanásia encobre situações existenciais como o receio de ser um fardo ou perder a autonomia» disse Margarida Neto. E pior, «resolve» perversamente de uma vez por todas o cansaço da vida, o isolamento, a doença mental e a idade. O mais grave é que muitos casos de eutanásia não são pedidos pelo próprio e isso, sim, é verdadeiramente assustador.

«Na Holanda, fazem-se 5 mil eutanásias por ano, apesar da lei e das comissões reguladoras. Todos os anos tem aumentado. Sabemos que há eutanásias não pedidas pelo próprio, e que são até do desconhecimento da própria família. Sabemos que doenças como a depressão e a demência têm servido de justificação para a eutanásia. Na Bélgica há crianças a ser eutanasiadas. Esta é a realidade e chama-se rampa deslizante. Existem documentos e artigos científicos a comprovar tudo isto.»

Os números são desoladores e eloquentes de uma cultura de descarte. Não quero isso para mim nem para o meu país, muito menos para os meus familiares e amigos. Se tudo correr bem, havemos de envelhecer e ficar mais frágeis. Se tudo correr mesmo muito bem havemos de ter profissionais de saúde apostados em tratar ou acompanhar as nossas doenças, cuidando das nossas vidas. Não quero médicos que concordem que a minha vida já não vale a pena e se ofereçam para me matar, em vez de me encherem de confiança, esperança e cuidados. Arrepia-me a ideia do negócio à volta da morte e das clínicas que têm que cumprir um business plan, usando para isso estratégias de marketing e fidelização (!) que passam por encorajar famílias a livrarem-se do peso dos mais velhos, dos mais doentes e dos menos capazes.

Eutanasiar a pedido do próprio já é uma realidade dura e difícil – e todos compreendemos que haja quem peça a eutanásia, pois há sofrimentos indizíveis, mas uma coisa é pedir para morrer, e outra é servir a morte em vez de tentar encontrar estratégias para minimizar o sofrimento físico, moral e emocional, ajudando quem pede a eutanásia a valorizar a sua vida.

Fiz três anos de voluntariado de cabeceira numa Unidade de Cuidados Paliativos e não me canso de partilhar que conheci várias pessoas (de diferentes idades) que entraram a gritar desesperadas por eutanásia e deixaram de a pedir quando começaram a beneficiar desses mesmos cuidados paliativos. Algumas destas pessoas voltaram a viver uma vida satisfatória, viajaram e realizaram sonhos antes de morrerem e foi muito comovente, muito poderoso e extraordinariamente transformador assistir ao seu processo de aceitação da sua condição, bem como à forma como se pacificaram com o seu fim. Falo de pessoas autênticas que ficam para sempre como monumentos de coragem e de verdade, a quem presto a mais sincera homenagem por me terem permitido compreender o valor da vida no auge da doença e da incapacidade. É por estas pessoas, porque sei o que passaram, porque vi e porque também estive lá, à sua cabeceira, que nunca mais poderei deixar de sair à rua e gritar a favor dos cuidados paliativos, contra a eutanásia.





«Muhammad» é o futuro da Europa


Em 2015 e 2016, aproximadamente 2,5 milhões de migrantes chegaram à Europa, de acordo com um relatório
do Pew Research Center. Foto: migrantes na costa da Líbia tentam atravessar o Mar Mediterrâneo rumo à Europa
em 18 de Fevereiro de 2017. (Foto David Ramos/Getty Images)

Giulio Meotti, Gatestone, 6 de Novembro de 2017

Original em inglês: «Muhammad» is the Future of Europe

Tradução: Joseph Skilnik

  • Estima-se que nos próximos trinta anos a população de África aumente em um bilião de habitantes.
  • O economista francês Charles Gave recentemente previu que a França será de maioria muçulmana em 2057, e esta estimativa nem sequer levou em consideração o número esperado de novos migrantes.
  • Não há dúvida, a colossal expansão da população em África almejará chegar ao litoral de uma Europa rica e senil que já está a passar por uma revolução demográfica interna. A Europa, para manter a sua cultura, precisará de tomar decisões difíceis, não apenas divertir-se até à morte. A questão é: a Europa protegerá as suas fronteiras e civilização antes de afundar?
Neste Verão o presidente francês Emmanuel Macron viu-se no meio de um imbróglio político – com acusações de «racismo» – por ter dito que as mulheres «com sete ou oito filhos» são responsáveis pela actual situação em que se encontra o continente africano, criando adversidades, segundo Macron, «civilizatórias».

As Nações Unidas afirmam que Macron está correcto. De acordo com o relatório demográfico anual da ONU: «Projecções da População Mundial das Nações Unidas,» um sexto da população mundial vive actualmente em África. Em 2050 a proporção terá atingido um quarto, e no final do século, a África terá quatro biliões de habitantes – um terço.

Na África de hoje, há quatro vezes mais nascimentos do que falecimentos. Segundo dados de 2017, a taxa de fertilidade total é de 4,5 crianças por mulher, em comparação com 1,6 na Europa. Estima-se que nos próximos trinta anos a população de África aumente em um bilião de habitantes. Não é difícil imaginar como a imigração ilegal em massa afectará a Europa por meio desta pressão demográfica sem precedentes. A demografia africana já está a pressionar o «velho mundo».

Assim que a Alemanha, recentemente, abriu as portas para a entrada de mais de um milhão de pessoas do Médio Oriente, Ásia e África, os defensores das fronteiras abertas, reiteradamente, disseram que um milhão de migrantes não significavam nada em relação a uma população europeia de 500 milhões de habitantes. No entanto, trata-se de uma comparação enganosa. A comparação correcta é a dos recém-chegados e nascimentos. Em 2015 e 2016 os nascimentos na Europa atingiram a marca de 5,1 milhões. No mesmo período, de acordo com um relatório do Pew Research Center, aproximadamente 2,5 milhões de migrantes chegaram à Europa. E, em muitos países, como a França por exemplo, recusam-se a registar os nascimentos de acordo com a origem étnica, não há como saber quantos nascimentos ocorridos na Europa poderiam ser atribuídos às comunidades muçulmanas.

Outros estudos da ONU também informam quanto às perspectivas europeias, quando a «Europa» não significa somente a UE, mas também as terras do leste europeu. Em 1950 a população europeia era de 549 milhões, em 2017 de 742 milhões. Em 2050 estima-se que será cerca de 715 milhões. Em 2100, segundo projecções, o número deverá cair para 653 milhões. Pelo andar da carruagem, em 30 anos, devido ao colapso demográfico, a Europa perderá 30 milhões de pessoas e, no final do século, quase 100 milhões. O «controle de natalidade» funcionou eficientemente na Europa, que demograficamente não precisava disto, e pessimamente em África, que precisava.

Na Europa, haverá países que encolherão e países que crescerão. Os que crescerão dir-nos-ão que tipo de continente a Europa virá a ser. A Europa, com a acrescida pressão demográfica de África, será dominada pelas maiorias muçulmanas.

A Europa está a cometer eutanásia social. A Alemanha deverá perder 11 milhões de pessoas, a Bulgária passará de 7 para 4 milhões, a Estónia de 1,3 milhões para 890 mil, a Grécia de 11 para 7 milhões, a Itália de 59 para 47 milhões, Portugal de 10 para 6 milhões, a Polónia de 38 para 21 milhões, a Roménia de 19 para 12 milhões e a Espanha de 46 para 36 milhões. A Rússia deverá encolher de 143 para 124 milhões.

Quanto aos países com crescimento populacional: estima-se que a França salte de 64 para 74 milhões e o Reino Unido de 66 para 80 milhões. As projecções indicam que a Suécia salte de 9 milhões para 13 milhões e a Noruega de 5 para 8 milhões. Estima-se que a população da Bélgica de 11 milhões aumente 2 milhões. Estes cinco países europeus também estão entre os que têm a maior proporção de muçulmanos.

Concomitantemente, na semana passada um novo relatório da Eurostat «(Gabinete de Estatísticas da União Europeia), organização estatística oficial da União Europeia que actua na produção de dados» divulgou que o número de mortes no «velho mundo» saltou 5,7% num ano devido à população envelhecida, mas que o crescimento demográfico nas áreas de alta densidade islâmica é espantoso:
  • «as taxas mais elevadas de crescimento natural da população foram registadas nas regiões leste de Londres de Hackney & Newham (14 por 1 000 habitantes) e Tower Hamlets (12 por 1 000 habitantes) e nos subúrbios nas regiões nordestinas parisienses de Seine-Saint-Denis (13 por 1 000 habitantes)».
O economista francês Charles Gave recentemente previu que a França será de maioria muçulmana em 2057, e esta estimativa nem sequer levou em consideração o número esperado de novos migrantes.

Na semana passada, no Reino Unido, o Departamento Nacional de Estatística anunciou que no ano em curso um dos nomes mais populares dados aos meninos recém-nascidos é Muhammad e «de longe o mais popular, se diferentes formas de escrevê-lo forem consideradas». O mesmo se dá nas quatro maiores cidades da Holanda. Em Oslo, capital da Noruega, Mohammed é o nome top, não só para meninos recém-nascidos, mas também para os homens em geral que lá residem. Dever-se-ia ser cego para não compreender a tendência: «é a demografia, idiota».

Não há dúvida, a colossal expansão da população de África almejará chegar ao litoral de uma Europa rica e senil que já está a passar por uma revolução demográfica interna. A Europa, para manter a sua cultura, precisará de tomar decisões difíceis, não apenas divertir-se até à morte. A questão é: a Europa protegerá as suas fronteiras e a civilização antes de afundar?