sexta-feira, 6 de maio de 2016
Os cidadãos e a gramática
Maria Regina Rocha, Público, 4 de Maio de 2016
Talvez não tenha sido muito feliz a criação do termo «igualdade de género», pois as pessoas não são palavras, sendo mais adequada a expressão «igualdade de direitos, deveres e garantias entre sexos», e, quanto ao «Cartão de Cidadão», esta designação naturalmente que engloba todo e qualquer cidadão.
Recentemente, tem sido objecto de discussão a denominação do Cartão de Cidadão, documento por meio do qual, em Portugal, se procede à identificação das pessoas, verificando-se em diversos artigos, e invocando-se a «igualdade de género», alguma confusão entre sexo e género, pelo que talvez valha a pena distinguir estes dois conceitos e explicar como funciona a língua portuguesa (e respectiva gramática) no que diz respeito à designação dos seres e das pessoas em geral.
Como ponto prévio, convém referir que o signo linguístico é arbitrário, o que significa, genericamente, que a designação de um determinado objecto, ser, fenómeno, etc., obedece a alguma convenção, variando de língua para língua. Observe-se, por exemplo, que «o mar» (palavra do género masculino em português) corresponde a «la mer» (feminino em francês) e a «the sea» (sem género em inglês) e que «uma criança» (palavra do género feminino em português, independentemente do sexo da criança em causa) corresponde a «un enfant» (palavra masculina em francês) e a «a child» (palavra sem género em inglês): como se vê, palavras diferentes e de diferentes géneros para designar a mesma realidade.
Assim, é conveniente distinguir sexo de género gramatical.
O sexo diz respeito a características morfológicas das pessoas e de outros seres vivos. Um género gramatical é um conjunto de palavras que seguem determinadas regras de concordância, distintas das dos outros géneros. Há línguas em que existe em alguns domínios uma relação entre género e sexo, mas não absoluta nem determinante (o caso da nossa), outras em que não há qualquer relação entre género e sexo; outras, raras, em que existe uma relação exacta; muitas em que o género está relacionado com outros factores (animado ou inanimado; metal, madeira ou pedra...), e mesmo algumas em que não existe sequer género.
Em português, muitos dos substantivos que designam um ser animado têm um género que corresponde a uma distinção de sexo (exemplos: o menino, a menina; o gato, a gata), mas muitos outros há em que tal não se verifica, quer no que diz respeito aos animais, quer no que diz respeito às pessoas.
Efectivamente, embora haja nomes de animais que têm masculino e feminino (o coelho, a coelha; o cavalo, a égua…), muitos dos substantivos que designam animais têm apenas uma forma (masculina ou feminina) para os dois sexos. São os substantivos epicenos, de que são exemplo a borboleta, a foca, a girafa, a serpente, o milhafre, o sapo, o tubarão…
Passando às palavras que designam pessoas, notamos que muitas delas têm a marca de género correspondente ao sexo, ou por meio do uso de uma palavra diferente consoante o sexo (exemplos: homem, mulher; pai, mãe), ou marcando-se a palavra feminina com um morfema próprio (exemplo: professor, professora). Há, no entanto, um certo número de substantivos, chamados «comuns de dois» e outros «sobrecomuns», que não têm essas marcas. Os «comuns de dois» são aqueles que têm a mesma forma para o masculino e para o feminino, sendo apenas o artigo que indica se nos estamos a referir a uma pessoa do sexo feminino ou do sexo masculino (exemplos: o artista, a artista; o colega, a colega; o presidente, a presidente). Os «sobrecomuns» são aqueles que têm um só género gramatical, não se distinguindo nem sequer pelo artigo (exemplos: a testemunha, o cônjuge, a vítima), verificando-se apenas pelo contexto, quando necessário, qual o sexo da pessoa. Este último caso acontece porque não importa aqui marcar a distinção de sexo: o que importa é a condição ou a situação da pessoa, e não a diferença de sexo.
De referir, ainda, que, na sua maior parte, as palavras quer de um género quer do outro se referem a objectos ou a seres vivos de qualquer sexo (lagarto, salgueiro...), não havendo nenhum tipo de critério nessa distribuição.
A desfaçatez intelectual de Pacheco Pereira
Francisco Mendes da Silva, Jornal de Negócios, 4 de Maio de 2016
No caso de Pacheco, o que hoje orienta as suas opções políticas é um ressentimento pessoalíssimo contra a geração de Passos Coelho no PSD.
Numa recente deambulação pelas livrarias de Madrid, chamou-me a atenção «La Desfachatez Intelectual», uma invectiva do sociólogo Ignacio Sánchez-Cuenca contra a prepotência e leviandade com que muitos intelectuais, com prestígio noutras paragens (na literatura, na academia), comentam a actualidade política. O livro atira sobre gente que aprecio (Vargas Llosa, Javier Cercas), mas acerta no alvo: às vezes parece que o brilhantismo literário e o rigor escolástico são fonte de legitimidade para uma espécie de desanuviamento lúdico e relaxamento das regras da honestidade no ofício menor da análise política.
No passado sábado, Pacheco Pereira publicou um artigo que encaixa perfeitamente nesta tese («Para a nossa direita radical o Papa é do MRPP», Público, 30/04/2016). Segundo Pacheco, os partidos da direita portuguesa estão sob resgate de uma ideologia radical – o liberalismo antiestatista – e esse radicalismo é demonstrado pela forma como os apoiantes do PSD e do CDS se manifestam nas redes sociais, habitualmente entre a infâmia dos comentadores heterodoxos à direita (Pacheco incluído) e o insulto racista dirigido a António Costa.
O artigo é um monumento à desonestidade. Desde logo, não nomeia um único caso de «apoiante» que ilustre a teoria. Aliás, quem conhece as tais redes sociais percebe que Pacheco alude apenas a duas ou três pessoas que nem sequer integram qualquer nomenclatura – restrita ou lata – dos partidos do centro-direita. A ideia é deixar tudo sob uma névoa impressionista para poder ligar o estilo de uns poucos à estratégia institucional do PSD e do CDS. E isto enquanto expressamente se absolve a esquerda das mesmas práticas. Logo a esquerda, que tantas vezes faz política partindo da desonra moral do adversário (a direita nunca está simplesmente enganada – está sempre a soldo de interesses obscuros).
O pior da desonestidade do artigo está, porém, na forma como Pacheco deixa entender que vê a «ideologia» que enjeita. O radicalismo como arma de arremesso corrente e indiscriminado contra adversários gera um relativismo perigoso, uma falta de critério que nos deixa desarmados contra os verdadeiros radicalismos. Pacheco sabe que o liberalismo – a teoria das liberdades, da economia de mercado e da limitação do poder – está na origem da emancipação e progresso dos povos. Tem cultura para isso. Tem cultura e tem passado. Pacheco já foi um falcão neoliberal, um defensor da destruição criativa do capitalismo. Como as «redes» vieram lembrar, Pacheco já lutou contra «o socialismo em que vivemos impregnados, e que hoje se chama 'estado-providência', ou 'modelo social europeu', que nos condena à mediocridade». Pacheco já achou que precisávamos de «mais liberalismo»: sem mais «crise» (da de que falava Schumpeter) e sem mais «boa» insegurança, não somos capazes de mudar. O Estado faz tudo para nos poupar a essa insegurança, e, como toda a Europa, afundamo-nos, pouco a pouco, na manutenção, geracionalmente egoísta, de modelo social insustentável (Sábado, Outubro de 2005).
Como qualquer historiador percebe, por vezes são as pequenas narrativas, e não os grandes movimentos, que determinam a História. No caso de Pacheco, o que hoje orienta as suas opções políticas é um ressentimento pessoalíssimo contra a geração de Passos Coelho no PSD. Esse ressentimento cavou um abismo entre o que um dia pensou e o que actualmente diz pensar. Na profundidade desse abismo está a medida da desfaçatez intelectual de Pacheco Pereira.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
O socratismo sem Sócrates?
Rui Ramos, Observador, 4 de Maio de 2016
O PCP e o BE aprovaram o seu primeiro PEC. Para Bruxelas, não chega. Virão aí outros PEC, numa escalada semelhante à de 2010-2011? Seria o socratismo sem Sócrates, mas com Jerónimo e Catarina.
A «geringonça» funciona, diz o primeiro-ministro. Talvez. Mas a que custo? Começámos a descobrir ontem: segundo a Comissão Europeia, o Estado português não vai, este ano, conseguir dar aos seus credores provas de que está a evoluir na direcção de finanças sustentáveis, isto é, de que não precisará de continuar a abusar do crédito para pagar salários, pensões e serviços. Há quem esteja convencido de que este caminho de previsões formidáveis, derrapagem na despesa e medidas adicionais só pode culminar num desastre, sob a forma apocalíptica de um novo resgate, como em 2011.
Talvez convenha admitir que não. O governo parece esperar que a União Europeia, carregando mais ou menos na «austeridade», nunca deixará cair Portugal, como ainda não deixou cair a Grécia. Tudo seria, portanto, uma questão de malabarismo. E há condições para esse malabarismo. Na última sexta-feira, na Assembleia da República, com cinco anos de atraso, o PCP e o BE aprovaram finalmente o PEC 4 – através do expediente de impedir que houvesse votação. Em Março de 2011, comunistas e bloquistas abraçaram-se com a direita para derrubar o PS; agora, escolheram o governo e os seus PEC. António Costa pode assim reatar com o tipo de governação que José Sócrates iniciou em 2010: uma escalada de Programas de Estabilidade (entre 2010 e 2011, foram quatro em pouco mais de um ano), enquanto ao mesmo tempo anuncia «qualificações» e «investimentos». Vai ser o socratismo sem Sócrates, mas com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.
Em 2011, com os mercados à solta, a maré dos juros subiu e houve que deitar mão à boia da Troika. Mas este ano, com os mercados a dormir o sono do BCE, o ambiente é mais propício. Agora, quando as obrigações a 10 anos sobem «vertiginosamente», andam nos 3%; em 2011, a média foi de 13%. Nestes números, está tudo o que é preciso saber sobre o funcionamento da geringonça: há a folga que faltou em 2011 para maquilhar a austeridade.
As facturas vão aparecendo, como a do imposto sobre os produtos petrolíferos. Mas por enquanto, chega a cuidadosa separação entre o que se diz em público em Portugal e o que se diz em segredo na Europa. Já foi a estratégia de Sócrates em 2010-2011. E quando se tornar óbvio que o crescimento económico nunca será mais do que uma previsão estival e for necessário largar as repartições de finanças às canelas do país? Que se faz então? Faz-se o que tem feito o Syriza: um confronto arrastado com a Europa, sem rupturas mas com muita atitude, de modo a trespassar as responsabilidades para Bruxelas e a empurrar todos os críticos para a esquina vergonhosa da traição à pátria. A certa altura, a população cansar-se-á. Mas cansar-se-á com todos, e não apenas com o governo, o que dará à geringonça margem para persistir, como o Syriza na Grécia.
O que é pior? Em 2011, o plano da Troika tinha muitas asperezas, mas prometia a redenção, uma vez cumpridas certas metas (que andaram sempre a ser revistas). Era suposto ser um tormento com prazo definido. O plano do Syriza tem mais a ver com o mito de Sísifo: é a crise como nova normalidade, e a luta como modo de vida. Tal como a Grécia, teremos Portugal oficialmente declarado um caso perdido, um país onde um europeu do norte poderá passar férias de praia ou um fundo de risco americano realizar algum lucro desesperado, mas que de resto servirá apenas para o PCP e o BE nunca mais acabarem de ter razão sobre a perversidade do «imperialismo europeu». Já o disse: os portugueses estão destinados a descobrir que há destinos piores do que o do resgate de 2011.
terça-feira, 3 de maio de 2016
As vacas sagradas do 25 de Abril
Sofia Vala Rocha, Sol, 2 de Maio de 2016
O nosso Partido Comunista Português tem um fetiche com a Constituição da República Portuguesa de 1976. Assumiu-se sempre como fiel guardião da dita. O PSD, PS e CDS participaram nas várias revisões constitucionais, só o PCP recusou participar em qualquer revisão.
Defender a imutabilidade da Constituição, recusando revisões, vituperar a iniciativa privada, paralisar a economia nos sectores-chave através do domínio dos sindicatos foi, durante 40 anos, a forma de existir politicamente do PCP. Mantiveram-se a defender a Constituição e deliberadamente afastados do poder central e da governação.
Esta estrita ortodoxia valeu-lhes a devoção dos intelectuais, das redacções, dos jornalistas, dos media em geral. A recusa do poder por parte de Cunhal tornou-o uma lenda.
Em 40 anos, o poder foi sendo exercido, à vez, pelo PS ou pelo PSD – este às vezes coligado com o CDS. Os governos minoritários eram aceites e governavam. O nosso sistema partidário e de governo era de alternância por causa do Partido Comunista. Sempre de fora das «venalidades» da governação, o PCP fazia de consciência moral ou de grilo falante. Qualquer um de nós terá dito, algumas vezes, nem que fosse para os seus botões: «Nisto, o PCP tem razão».
O tempo tem o terrível hábito de ser implacável. O nosso PCP pré-Perestroika, que nunca aceitou a queda do Muro de Berlim, começou a ser ultrapassado pelos jovens do Bloco de Esquerda. O PCP não queria governar. O Bloco de Esquerda não queria outra coisa.
Subitamente, nas últimas legislativas de 2015, o sistema político dos últimos 40 anos implodiu quando o PCP, já muito fragilizado pela votação crescente no Bloco, aceita apoiar o Governo socialista de António Costa.
Os comunistas abandonaram a ortodoxia e meteram as mãos na massa da governação. A austeridade continua a mesma, as reformas aumentaram 60 cêntimos, o preço de uma bica. O desemprego permanece alto, a emigração também. Continuam os congelamentos nas vagas da Função Pública, bem como a falta de aumentos. Mas desta vez os sindicatos não desceram a Avenida da Liberdade, nem pediram a demissão do Governo. E isso, em si, já é refrescantemente novo. Igualmente novo é vê-los a viabilizar orçamentos de austeridade.
Que me perdoem, mas ver comunistas alinhados de boca aberta à espera da colher de óleo de fígado de bacalhau, a dizer que é mel, dá-me vontade de rir.
A Constituição é a mesma há 40 anos. Os protagonistas políticos de hoje são os mesmos de há 40 anos. Mas são obrigados a fazer coisas diferentes. O PCP tornou-se tão realista, ou cínico, se quiserem, quanto os demais partidos. Bem-vindos à democracia!
Mas agora que o PCP se converteu ao poder, não vejo como vai continuar a querer ser guardião do templo da Constituição. Foi-se-lhe a autoridade moral que só a abstinência dava.
Quem governa revê constituições, muda leis fundamentais e faz reformas.
Este 25 de Abril já foi histórico. Foi o princípio do fim das vacas sagradas do regime.
Parabéns, António
João Pereira Coutinho, Correio
da Manhã, 30 de Abril de 2016
António Costa ficará para a história: BE e PCP já
são europeístas
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Censuras
João José Brandão Ferreira,
Oficial Piloto Aviador
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán esteve em
Portugal, onde no dia 15 de Abril, participou na conferência da Internacional
Cristã Democrata. Que se saiba apenas o jornal «Expresso» noticiou o evento.
Entretanto quase todos os órgãos de comunicação
social (OCS) verteram horas de imagens, som e resmas de escrita, sobre a
multitude de jogos de futebol entretanto ocorridos.
As eleições presidenciais na Áustria deram, na 1.ª
volta, o apuramento para o despique final, um candidato tido de
extrema-direita, juntamente com outro de extrema-esquerda (camuflado com o
rótulo de ecologista), com a «originalidade» da derrota clamorosa de todos os
candidatos do «centrão».
Pois o país ficou a ignorar, praticamente tais
resultados e o que se passou…
Ao mesmo tempo, porém, noticias, reportagens e
comentários sobre a morte de estrelas do rock, normalmente ligadas a escândalos
sexuais, droga, taras e vícios sociais vários (ou será que já não há vícios?),
lograram amplo eco nas pantalhas, restante espectro electromagnético e em
caracteres alfabéticos, impressos numa substância que teve a sua origem nos
papiros egípcios.
Obama – o «entertainer» – veio à Europa interferir
abusivamente no referendo inglês sobre a permanência da Grã-Bretanha na União
Europeia; vai à Alemanha tentar condicionar a chanceler Merkel (que, por acaso,
se chama «Kasner») sobre as opções a tomar por aquele país – que depois de
vencido na II Guerra Mundial, até hoje não teve um tratado de paz –
relativamente às suas opções na NATO, versus Rússia, ao mesmo tempo que tenta
pressionar aquele grupo de políticos burocratas, não eleitos e principescamente
pagos, sitos nas diferentes agências da desunião europeia, sem norte, a
assinarem o Acordo de Parceria Transatlântica de Comercio e Investimento[1],
que anda a ser negociado «por baixo da mesa» e que, a ir para a frente, irá
soterrar de vez, a soberania dos estados europeus (e os EUA), sem que a
esmagadora maioria dos OCS nacionais, tenha feito desta viagem a mais elementar
cobertura jornalística.
Sem embargo, partem dois ou três carros com umas
bugigangas – logo denominada de caravana – para oferecer aos
refugiados/migrantes/emigrantes/etc., finalmente sustidos na Grécia (ou noutro
ponto qualquer) e é um ver se te avias de notícias laudatórias.
Aqui deve fazer-se um parêntesis para dizer que as
notícias devem ser apenas isso: noticias. Não têm, nem cabe aos jornalistas
enquanto tal, adjectivá-las…
Por outro lado, a grande maioria das ocorrências –
que são às centenas – de latrocínios, destruições, atentados à integridade
física e moral de pessoas, exigências ridículas e despropositadas e os
milhentos problemas e custos, causados por esta vaga de migração descontrolada
– que está a fazer com que as populações dos países «assaltados» estejam a
ficar prisioneiras e escravas no seu próprio território (ou o
território agora, é comum a todos?) – são omissas em 95% dos «média» nacionais!
E quando alguns ditos refugiados – pois só conhecem
de Portugal, alguns dos seus futebolistas – sendo inquiridos, não desejam vir
para cá, é o próprio Presidente da República que se amofina com isso e quer é
que eles venham…
Pergunta-se (os exemplos podiam continuar «ad nauseum»):
se isto não representa a mais despudorada censura (incluindo a autocensura, que
é a pior de todas) é o quê?
Se tal não se enquadra na mais inacreditável
manipulação, enquadra-se em quê? Se o que pela rama se descreveu, não configura
a maior falta de respeito pela liberdade de informação e de expressão,
configura o quê, santo Deus?
Deus, eu disse Deus?
Será por isso que Sua Santidade o Papa levou
refugiados muçulmanos (e, aparentemente, só esses) para o Vaticano?
Será que acampam na Capela Sistina ou irão
construir uma mesquita (com minarete e tudo) para os albergar?
Será que a Santa Sé também irá pagar a transladação
dos mártires cristãos, que andam a ser dizimados um pouco por todo o mundo
maioritariamente muçulmano, só por o serem, para o local onde Pedro fundou a
Igreja?
O prémio Carlos Magno 2016, entregue anualmente na
cidade de Aachen, foi atribuído a Sua Santidade. Felizmente que o chefe
espiritual dos católicos, apesar de o ter aceitado, não se deslocará àquela
cidade alemã, sendo o prémio entregue em Roma.
Porventura não haverá ninguém em toda a Santa Madre
Igreja, que possa alertar o Sumo Pontífice para o significado e envolventes, de
tal distinção?
O mundo foi sempre um local perigoso. Convinha não
andarmos confundidos.
Offshores, a última conquista de Abril
Helena Matos, Observador, 1
de Maio de 2016
Ironias de Abril, em 1974, nem empresários nem
políticos tinham dinheiro fora de Portugal. Hoje as elites não acreditam no
país quanto baste para lhe entregar o seu dinheiro.
Quem ouvisse a conferência de imprensa dada pelos
ministros Mário Centeno e Eduardo Cabrita esta quinta-feira acreditaria que os
offshores são um assunto da maior relevância para a saúde das finanças públicas
portuguesas. Compromissos com Bruxelas acerca do deficit, detalhe das medidas
avançadas no Plano de Reformas e no Programa de Estabilidade, quais impostos
vão aumentar… nada disso importou. O que havia para anunciar era uma série de
medidas para combater os offshores.
Neste Abril de 2016 partimos literalmente falando à
conquista dos offshores.
Convenhamos que a técnica não
é nova: face às más notícias ou à necessidade de criar uma barreira protectora
em torno dos governantes criam-se ou sobredimensionam-se factos que cumprem o
papel de inimigos úteis. Rapidamente se instala um ambiente de cruzada. Como se
todos os problemas do país estivessem concentrados nos offshores. Mas os offshores são apenas um capítulo – o mais
recente – numa longa lista de inimigos úteis que, uma vez derrotados,
permitiriam ao país seguir em frente.
Quem não se recorda do
problema das multinacionais? As
multinacionais eram «a face mais negra do capitalismo». Apedrejar as
instalações das multinacionais – para mais muitas delas com ligações à CIA –
quando não fazer-lhes explodir uns escritórios era um acto legítimo de resistência.
Quase uma questão estética. Ninguém de bom senso defendia as multinacionais.
Estas apenas vinham para o nosso país – e para os demais – explorar o povo, as
riquezas nacionais e mandar nos governos.
Depois, quando já ninguém as contestava, as multinacionais,
verdadeiros espíritos de contradição, começaram a ir-se embora. Aí nasceu a
indignação com a deslocalização. Então as multinacionais iam-se embora? Não
podia ser. Tanto mais que, oh cúmulo do horror!, as empresas nacionais iam-lhes
no encalço.
A deslocalização das empresa
protagonizava agora «a face mais negra do capitalismo».
A mesma face que até há pouco era representada pelas mesmas empresas quando se
tinham resolvido localizar naqueles países de que agora deslocalizavam. Mais
uma vez houve um consenso: a deslocalização era um crime e os países deviam
criar mecanismos para combater a deslocalização, explicavam os mesmos que anos
antes demonstravam as vantagens de nos vermos livres das multinacionais e de se
estancar a sua vinda. Aliás, se houvesse uma verdadeira coordenação europeia –
afirmavam – as empresas não deslocalizariam porque seriam penalizadas por isso.
Tal como no passado deviam ter sido impedidas de se instalar aqui. Complicado?
Então preparem-se para essa saga nacional que foi a luta contra os
intermediários, os grandes grupos económicos, a ausência de grandes grupos
económicos e as empresas de vão de escada.
Comecemos pelos
intermediários. Nos anos 70, acabar com os intermediários era
um desígnio nacional, um verdadeiro consenso, uma necessidade absoluta. Os
jornais enchiam-se com artigos que comparavam os preços pagos aos produtores
versus os preços por que eram vendidos os produtos e, indignadas, as forças
vivas do país concluíam que os lucros iam para os intermediários, logo havia
que eliminar os intermediários. Houvesse a coragem de acabar com os
intermediários e o povo passaria a viver muito melhor.
Para a oposição a Marcello Caetano o intermediário
era mais um exemplo da perversão do regime. Para o regime, o intermediário era
um símbolo de cupidez pouco compatível com o Estado Social que Marcello Caetano
lançara. E assim, em Abril de 1973, em pleno choque petrolífero, a inflação em
Portugal nascia, segundo as almas bem pensantes e de bom coração, não de
qualquer crise nos combustíveis mas sim da maldade dessa figura que se acoitava
algures entre o bom produtor e o comerciante.
Para contrariar a inflação dos bens alimentares, a
Junta Nacional das Frutas não só tabelou os preços dos legumes e das frutas
como criou uma rede – os postos da Junta – onde, livres de intermediários, se
passaram a vender legumes e frutas. Infelizmente não houve maneira de convencer
as mulheres portuguesas (quem na época fazia as compras) a trocar as
mercearias, os mercados e os novos e apelativos supermercados por aquelas
barraquinhas de folha onde, na falta de compradoras, os legumes murchavam e as
frutas definhavam.
Vieram as chuvas e os postos da Junta foram-se
enchendo de ferrugem. Caiu o regime que os viu nascer, foi extinta a Junta
Nacional das Frutas, acabou o PREC e os postos lá se mantinham de pé. Sem
frutas nem legumes mas com muita ferrugem e muitos ratos. Vários anos depois
ainda andavam os executivos municipais a decidir o que fazer com os velhos
postos. Como na época não havia o conceito de loja histórica os postos da Junta
foram sendo retirados. Tal como desapareceram também os postos da UCAL que,
para quem não saiba o que era, se tratava de umas lojas altamente históricas
destinadas a vender, livres de intermediários, leite e manteiga. Sendo que
manteiga às vezes havia e o leite invariavelmente faltava. Mas o
desaparecimento dos postos da Junta Nacional das Frutas e da UCAL foi uma perda
irreparável. Nem sei como não os ressuscitam!
Mas descansem as almas inquietas com a exploração
do povo: o país não tinha desistido de combater os intermediários. Apenas se
tinha dotado de mecanismos mais eficazes e estruturas mais organizadas para
esse combate. Ou seja, o país apostava agora
nas cooperativas de consumo. A dado momento tornou-se mesmo um frenesi:
havia cooperativas para todos os gostos e até socialmente diferenciadas: ter o
cartão da cooperativa dos bancários era quase um emblema de pertença à nova
classe média. Já frequentar as cantinas da PSP funcionava como uma introdução à
Roménia de Ceausescu!
Como se sabe as cooperativas feneceram porque não
aguentaram a concorrência com os grandes supermercados e hipermercados,
nomeadamente com os do senhor Belmiro de Azevedo, onde qualquer pessoa desejosa
de parecer bem e com vários cartões de várias cooperativas jurava que nunca
entraria. Com tanta mudança os intermediários foram esquecidos como ódio de
estimação. De certo modo o ódio, tal como o casamento, para ser eficaz deve ser
monogâmico. E assim os intermediários foram substituídos pelas empresas de vão
de escada, como flagelo nacional a que sobre todos os outros havia que pôr fim.
Portugal não se desenvolvia
porque estava cheio de empresas de vão de escada. Para
mais as empresas de vão de escada eram invariavelmente propriedade dos
empresários mais ignorantes e estúpidos do mundo. Para a determinação do grau
da estupidez dos empresários portugueses concorria, segundo os abalizados
especialistas em «vaõdescadologia» que povoavam os jornais e a televisão, o
facto de os empresários por serem estúpidos não arriscarem e não investirem em
tecnologia e mão-de-obra qualificada.
Estavam as coisas neste ponto do diagnóstico sobre
os malefícios do vão de escada, quando se detecta outro fantasma pairando sobre
o país. Era ele protagonizado pelas
empresas que fazendo grandes investimentos em tecnologia recorrem a pouca
mão-de-obra. Logo os mesmos sábios pedem legislação que penalize
estas últimas empresas que não contribuem como deviam para a Segurança Social
porque, recorrendo a muita tecnologia, usam pouca mão-de-obra.
Note-se que este combate às empresas de vão de
escada que recorrem a muita mão-de-obra (mal paga) a que se seguiu o combate às
empresas que incorporam muita tecnologia e pouca mão-de-obra (melhor paga),
fora precedido pela batalha fundadora contra os grandes grupos económicos.
Em 1974 o nosso problema eram
os grandes grupos económicos. Havia que
nacionalizar os grupos económicos, donos de Portugal. Os seus fabulosos lucros
pertenciam ao povo e ao povo deviam ser devolvidos. Os grandes grupos económicos
(e também os grupos médios, os pequenos e até lavandarias, barbearias e
sapatarias) foram nacionalizados. Infelizmente para o povo os lucros fabulosos
ou mesmos só os lucros pequenos ou até residuais é que nem vê-los pois logo se
transformaram em gigantescos prejuízos.
Em resumo, Portugal, que primeiro não se
desenvolvia por causa dos grandes grupos económicos e das multinacionais passou
a não se desenvolver por causa da deslocalização das multinacionais e de não
termos grandes grupos económicos e apenas empresas de vão de escada. Depois
passámos a não nos desenvolver porque as empresas que já não eram grandes
grupos económicos nem de vão de escada passaram a investir mais em tecnologia e
menos em mão-de-obra barata, pelo caminho os intermediários devem ter ido à
vida deles felizes por mais ninguém os culpar de coisa alguma.
Convenhamos que todos estes
combates se inseriam num combate maior: o que visava extinguir a exploração do
homem pelo homem. Acabar com os patrões ou seja com os
exploradores era o meio mais que certo para acabar com a exploração do homem
pelo homem. Boa parte da massa cinzenta deste rectângulo ocupou-se durante anos
de questões relevantíssimas como: serão todos os patrões exploradores? Serão
exploradores os patrões que apenas têm um ou dois empregados e até trabalham ao
seu lado? Não serão esses patrões também umas vítimas do sistema? Qual sistema? O da exploração…
Apesar do consenso a exploração do homem pelo homem
não só não terminou como foi esquecida. Hoje ninguém se preocupa com a
exploração porque agora o que conta é que o explorador pague impostos. A fuga ao fisco (ou a simples expressão do desejo de
pagar menos impostos) tornou-se a fonte de todos os problemas, não apenas do
país, não apenas da Europa, não apenas do hemisférios norte mas sim de todo o
mundo. Até o facto de haver pessoas que procuram legalmente pagar
menos impostos se tornou um crime. E assim, neste Abril de 2016, partimos para
mais um combate. A saber o da luta contra os offshores. Outros se seguirão.
Tanto mais que cada vez teremos de ir buscar o dinheiro mais longe: ironias de Abril, há quarenta e dois anos, em 1974, nem
empresários nem políticos tinham dinheiro fora de Portugal. Hoje os
portugueses confiam no regime que têm mas as suas elites não acreditam no país
q.b. para lhe entregar o seu dinheiro. E a avaliar pelos dados revelados pelo
Ministério das Finanças neste final de Abril é bem provável que mais dinheiro
esteja já a sair: de 2010 a 2014, mais de 10.200 milhões de euros saíram de
Portugal para serem aplicados em sociedades offshore. Mas esse dinheiro não
saiu regularmente: o maior volume de transferências aconteceu em 2011, com mais
de 4.600 milhões de euros. E o mais baixo volume de transferência aconteceu em
2014, ano em que apenas cerca de 373 milhões de euros foram transferidos para
offshores. Percebido?
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